Cagarro é bioindicador de poluição marinha no Atlântico por proposta de Portugal
1 de jul. de 2025, 09:48
— AO Online/Lusa
O novo indicador ambiental permitirá avaliar a
quantidade, composição e evolução temporal do plástico ingerido por
juvenis de cagarro encontrados mortos durante o período de saída dos
ninhos.Esta espécie, abundante na
Macaronésia, surge como alternativa ao fulmar-do-ártico (Fulmarus
glacialis), utilizado noutras regiões da OSPAR, mas ausente nas
latitudes mais a sul, adiantou o executivo açoriano.Na
página do Governo Regional na Internet, é referido que o cagarro
"pertence a um grupo formado por diversas espécies de aves marinhas
(Procellariiformes) que inclui os albatrozes, as pardelas (...) e os
painhos. (...) O cagarro é a ave marinha mais característica dos Açores
e uma das mais antigas que existem no planeta. Os cagarros passam
grande parte da sua vida no mar (aves pelágicas), vindo a terra apenas
quando chega a altura de reprodução, para fazerem os seus ninhos,
acasalarem, incubarem o seu ovo e cuidarem da sua cria". Em
nota de imprensa, o Governo Regional dos Açores (PSD/CDS-PP/PPM)
explicou que a proposta foi aprovada na reunião ministerial da Convenção
para a Proteção do Meio Marinho do Atlântico Nordeste (OSPAR),
realizada em Vigo na última semana.Trata-se
de uma proposta apresentada por Portugal para a adoção do cagarro
(Calonectris borealis) como bioindicador comum de poluição por plástico
flutuante na Região V (Atlântico Alargado).É
liderada pelo Governo Regional dos Açores, através da Secretaria
Regional do Mar e das Pescas - Direção Regional de Políticas Marítimas,
com o apoio científico desenvolvido por Yasmina Rodríguez e Christopher
Pham, investigadores do Instituto de Investigação em Ciências do Mar
OKEANOS (Universidade dos Açores) e resulta de um programa de
monitorização iniciado em 2015, no âmbito da campanha de ciência-cidadã
“SOS Cagarro”, reconhecida internacionalmente.Além
do cagarro como bioindicador, foi também aprovado um limiar de
avaliação ambiental (‘threshold’): no máximo 20% das aves analisadas
deverão conter mais de quatro partículas de plástico nos estômagos, com
base numa amostra mínima de 200 aves juvenis recolhidos ao longo de
cinco anos consecutivos."Espera-se agora
que a reunião ministerial reafirme o compromisso político com a
implementação deste novo indicador, reforçando a colaboração regional e
contribuindo para os objetivos da Estratégia Ambiental para o Atlântico
Nordeste 2030 (NEAES 2030)", lê-se na nota divulgada pelo Governo
açoriano.A Secretaria Regional do Mar
considerou que a decisão "não é apenas uma conquista científica e
técnica", pois representa uma contribuição para uma "governança
cooperativa, onde os Açores poderão unir esforços com outras áreas da
Macaronésia, nomeadamente Madeira e Canárias", para uma monitorização
eficaz da poluição por plásticos numa das regiões mais biodiversas do
Atlântico."A aprovação deste bioindicador
pela OSPAR representa um reconhecimento claro do papel dos Açores na
vanguarda da proteção do Atlântico", acrescentou o executivo açoriano.A OSPAR constitui o principal instrumento de cooperação regional para a preservação do oceano nesta vasta área.