Cada vez mais pessoas com formação superior pedem ajuda devido à pobreza
10 de mai. de 2023, 15:50
— Lusa
“Começam
já a aparecer aqui números preocupantes de pessoas que realmente têm
uma escolaridade mais avançada, um nível de literacia maior. Até pessoas
que tiraram formação superior e depois, ou não conseguem arranjar algo
que seja compatível com a sua formação, ou então, conseguem, mas com
ordenados muito baixos”, disse à Lusa a diretora da AMI no Centro Porta
Amiga de Chelas (Lisboa).De acordo com Salomé Marques, as pessoas pedem sobretudo bens alimentares.“O
[pedido] flagrante é a alimentação. [As pessoas] dirigem-se ao centro
(…) com essa necessidade. Só que depois, em ambiente de gabinete,
percebemos que, além da alimentação, há toda uma série de necessidades
muita alargada, quer a água, a luz, o gás, as rendas, a medicação e, às
vezes exames, que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não comparticipa”,
realçou.A responsável salientou também que
a organização não governamental (ONG) tem recebido mais pedidos de
ajuda para apoio psicológico.“Estamos a
sentir a saúde mental das pessoas cada vez mais fragilizada. Ou seja,
isto é muito preocupante, porque não há emprego, não há poder económico e
claro que toda a estabilidade emocional vai ficar afetada e acaba por
ser uma bola de neve”, afirmou.“Se a saúde mental não está bem, dificilmente conseguimos dar o salto para melhorarmos outros níveis”, acrescentou.Salomé Marques antecipou que situação de pobreza em Portugal deverá “agravar-se mais” nos próximos tempos.“Se
estas pessoas já estão vulneráveis, a maioria mais vai ficar, porque,
do nosso total de população, a maioria que está em idade ativa está
desempregada. Entre os 16 e os 66 anos, 70% da nossa população está
desempregada. Tememos que a situação se vá ainda agravar”, observou,
perspetivando que até ao final do ano os números de pedidos de ajuda
poderão disparar, em relação a 2022.Segundo
um relatório da ONG, publicado no final de abril, o número de novos
pedidos de ajuda à AMI aumentou 46% no primeiro trimestre deste ano e
53% nos casos de pessoas em situação de sem-abrigo face ao período
homólogo.A AMI especificou que os seus
serviços sociais apoiaram no primeiro trimestre 5.409 pessoas em
situação de vulnerabilidade social, das quais 533 procuraram apoio pela
primeira vez, um aumento de 46% em relação ao mesmo período de 2022.Das
pessoas apoiadas, 50% são homens (2.692) e 50% são mulheres (2717),
encontrando-se a maioria em idade ativa, entre os 16 e os 66 anos (70%),
seguida de menores de 16 anos (21%) e dos maiores de 66 anos (7%). A maioria (79%) são naturais de Portugal e 6% dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). No
que diz respeito ao emprego, 43% das pessoas com mais de 16 anos, não
exerce qualquer atividade profissional e 41% não tem formação
profissional. De acordo com a AMI, os
recursos económicos provêm sobretudo de apoios sociais como o RSI -
Rendimento Social de Inserção (18%), pensões e reformas (10%), subsídios
e apoios institucionais (5%).