Cabul enfrenta regresso de milhares de refugiados sem saída entre duas guerras paralelas
Afeganistão
Hoje 10:37
— Lusa/AO Online
Em declarações à agência
noticiosa espanhola EFE, o porta-voz do Ministério dos Refugiados e da
Repatriação afegão, Abdul Mutalib Haqqani, indicou que esta situação vem
agravar a crise de refugiados que o Afeganistão já enfrentava devido às
deportações forçadas para o seu território.O agravamento do conflito com Islamabad obrigou mais de 21.000 famílias a deslocarem-se e a abandonar as suas casas.A
ofensiva, que mantém combates ativos na Linha Durand – a fronteira que
separa os territórios afegão e paquistanês -, intensificou-se hoje de
madrugada com o bombardeamento de um hospital em Cabul, onde o Governo
afegão liderado pelos talibãs denuncia um massacre com mais de 400
mortos.As fronteiras refletem uma
realidade comum de norte a sul: campos de organizações internacionais,
com recursos cada vez mais escassos, montam tendas e distribuem material
de emergência para uma população que regressa a um país sem meios para
os acolher.Na província oriental de Kunar,
o chefe do Departamento local de Refugiados, Mohammad Ibrahim Khail,
confirmou à EFE a deslocação de cerca de 7.500 famílias que sobrevivem
sob lonas em parques e nas margens de rios.“A
nossa vida e os nossos meios de subsistência ficaram lá: viemos apenas
com a roupa que trazíamos vestida”, relatou Gul Rahman Alkozai,
deslocado do distrito de Sarkano, citado pela agência espanhola.Outros,
como Haleem Gul Safi, descrevem como os bombardeamentos os obrigaram a
trocar as suas terras por uma tenda: “Vivemos desamparados e a vida
torna-se cada dia mais difícil”.A situação
é igualmente alarmante no oeste. O representante do Alto Comissariado
das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Arafat Jamal, alertou que
cerca de 1.700 civis atravessam diariamente a fronteira por Islam Qala,
fugindo da instabilidade no Irão, alvo de uma ofensiva militar dos
Estados Unidos e de Israel desde 28 de fevereiro. “Muitos regressam por medo, dizem que ali a vida já não é possível”, explicou à EFE o responsável fronteiriço Mawlawi Aslam.Estima-se
que 24.600 pessoas tenham regressado nas últimas semanas vítimas de um
“triplo deslocamento”: famílias que já eram refugiadas, foram deslocadas
por bombardeamentos em território iraniano e regressam agora a um país
exausto.“Saímos por causa da guerra e da
pobreza, e a guerra perseguiu-nos até lá”, contou Mohammad Qadir
Barahani, que regressou ao país com a família.Preso
entre as deportações e o agravamento da guerra nas suas fronteiras, o
Afeganistão aproxima-se de um abismo humanitário, onde o Programa
Alimentar Mundial (PAM) alerta que a sobrevivência de mais de 17 milhões
de pessoas depende de uma ajuda internacional que tem ignorado a
situação.