Cabrita diz ser "inusitado" pessoa no meio da via no atropelamento mortal na A6
29 de mai. de 2025, 17:26
— Lusa/AO Online
“Penaliza-me
tremendamente que a morte de Nuno Santos [o trabalhador que morreu]
tenha marcado este acidente rodoviário, mas o que há de inusitado, de
tantas viagens que fiz, foi haver uma pessoa no meio de autoestrada”,
afirmou.Eduardo Cabrita foi ouvido no
Tribunal de Évora como testemunha no julgamento do seu ex-motorista
Marco Pontes, que responde pelo crime de homicídio por negligência
grosseira pelo atropelamento mortal de um trabalhador na Autoestrada 6
(A6), em 2021.O antigo governante começou
por relatar o que aconteceu, salientando que, durante a viagem de
regresso a Lisboa após uma deslocação a Portalegre, conversava com o seu
adjunto, respondia a mensagens e chamadas e não olhava para a estrada.“Só
me apercebi que havia algo de anómalo quando o motorista e o
tenente-coronel Paulo Machado [o oficial de ligação da GNR no
ministério], a falar alto, [disseram] ‘o que é isto’ e, muito em cima,
apercebi-me de uma pessoa no meio da via”, descreveu.Segundo
o ex-ministro da Administração Interna, o carro que o transportava e
que era conduzido por Marco Pontes deu “uma guinada para o lado direito”
e travou, mas não conseguiu evitar o embate, “do lado esquerdo” da
viatura, com o peão.“É inusitado ver uma
pessoa a meio da estrada, numa autoestrada que não estava fechada ao
trânsito nem estava limitada”, reafirmou.Questionada
pela procuradora do Ministério Público (MP), esta testemunha respondeu
não ter a noção da faixa em que seguia o veículo nem da velocidade a que
seguia, admitindo saber agora, após consultar o processo, que o carro
vinha da faixa da esquerda.Em relação aos
veículos que transportam governantes, Cabrita esclareceu que “o
responsável pela condução é o motorista” e que se cumprem as regras,
notando que sempre que fosse preciso cumprir um horário avisava o
condutor, o que “aqui não aconteceu”.Sobre
a sinalização de trabalhos na via, o ex-ministro referiu que na zona do
acidente não observou qualquer sinal e que, quando já estava a sair do
local num outro carro da comitiva, é que viu “uma carrinha de obras
parada umas centenas de metros adiante”.“Em mais de 10 anos nunca tive um acidente na estrada”, afirmou, referindo-se ao período em que ocupou cargos governativos.Cabrita
revelou que conheceu Marco Pontes na altura em que foi secretário de
Estado da Administração Local, cargo que ocupou entre 2005 e 2009,
reconhecendo que foi o motorista que mais vezes o conduziu, enquanto foi
ministro da Administração Interna.“Nunca
houve sequer um toque de chapa ao longo de seis anos até este trágico
acidente”, frisou, apontando-lhe “absoluta segurança na forma como
conduz” e também qualidades pessoais.À
saída do tribunal, o antigo governante limitou-se a dizer aos
jornalistas que, com este depoimento, fez “aquilo que cabe às
testemunhas fazer num processo, que é contribuir para o apuramento da
verdade”.O caso remonta a 18 de junho de
2021, quando a viatura oficial em que seguia Eduardo Cabrita, conduzida
por Marco Pontes, atropelou mortalmente Nuno Santos, de 43 anos,
trabalhador de uma empresa que fazia a manutenção da A6, ao quilómetro
77,6 da via, no sentido Estremoz-Évora.O
Ministério Público acusou, no dia 03 de dezembro de 2021, Marco Pontes
de homicídio por negligência, tendo, nesse mesmo dia, o então ministro
da Administração Interna apresentado a sua demissão do cargo.