Cabo Verde quer seguir modelo cooperativo agrícola dos Açores
22 de set. de 2025, 09:43
— Rui Jorge Cabral
O arquipélago de Cabo Verde, um dos cinco países africanos de Língua
oficial portuguesa, quer adotar o modelo cooperativo dos Açores na sua
agricultura e, para tal, tem contado com a ajuda de um açoriano,
Fernando Sousa, consultor e antigo diretor regional na área da
Agricultura e do Desenvolvimento Rural. Fernando Sousa dirigiu já
duas ações de formação em Cabo Verde: a primeira em abril, direcionada
para os técnicos do Ministério da Agricultura e Ambiente de Cabo Verde e
a segunda em julho, direcionada para os agricultores que se pretendem
organizar em cooperativas e também para os dirigentes das cooperativas
já existentes em Cabo Verde. Fernando Sousa foi convidado pelo
Ministério da Agricultura e Ambiente de Cabo Verde, como
formador/consultor, na sequência do projeto ‘Semear Colher e Vender’,
que envolveu a ASDEPR, a ARDE, a AASM e o Governo Regional dos Açores e
de que foi coordenador técnico.Mas também com base na sua
experiência enquanto responsável da direção regional da Agricultura e da
direção regional do Desenvolvimento Rural, entre 2014 e 2018. Refira-se
igualmente que o ano de 2025 é o Ano Internacional das Cooperativas,
sendo que Cabo Verde não tem legislação exclusiva para o cooperativismo,
como existe em Portugal, nomeadamente o Código Cooperativo. Além
disso, as cooperativas em Cabo Verde estão inseridas no código das
sociedades comerciais, estando o governo cabo-verdiano neste momento a
trabalhar na lei que vai criar o Código Cooperativo de Cabo Verde. A
formação ministrada por Fernando Sousa em Cabo Verde teve, por isso,
ainda a intenção de ajudar os técnicos do Ministério da Agricultura e
Ambiente a criarem legislação de apoio às cooperativas agrícolas,
baseada no exemplo das iniciativas açorianas nessa área, nomeadamente o
Programa PAGOP e o Decreto Regulamentar 22/2011/A. Na formação para
os dirigentes cooperativos, foram mostrados “vários bons exemplos de
cooperativas dos Açores, quer no fornecimento de apoio técnico e fatores
de produção aos agricultores, quer na produção, transformação e
comercialização dos produtos agrícolas, como o leite, as hortícolas, a
fruta, as flores, o vinho e o mel”, explicou Fernando Sousa em
declarações ao Açoriano Oriental. Conforme refere o consultor no
setor agrícola, “as ações de formação para mim foram uma surpresa
agradável, porque vi muita motivação e vontade de adaptar o nosso
exemplo à realidade de Cabo Verde. E também da parte deles, acho que
ficaram bastante motivados porque desconheciam praticamente a nossa
realidade”.E quais são os setores agrícolas com maior potencial em
Cabo Verde? Conforme explica Fernando Sousa, “os setores com maior
potencial em Cabo Verde são as hortícolas, porque eles têm uma
dependência externa muito grande de hortícolas. Mas também nas
frutícolas, um vez que eles têm muito boa fruta, nomeadamente frutos
tropicais, mas cuja produção está muito dispersa e não está organizada
para fornecer em qualidade e quantidade nos mercados mais exigentes”.Existe,
por isso, potencial para crescer no abastecimento interno e até no
setor da carne, nomeadamente ao nível dos ovinos e caprinos, mas também
no setor dos laticínios derivados de ovelha e de cabra. Por outro
lado, quais são as maiores dificuldades de Cabo Verde para se
desenvolver do ponto de vista agrícola? Para Fernando Sousa, a resposta é
clara: o abastecimento de água para a agricultura.Isto porque,
explica, “eles têm a dificuldade da falta da chuva, mas também têm o
problema das infraestruturas”, uma vez que “não há ainda uma estratégia
definida e consolidada sobre as infraestruturas agrícolas”. Nesse
sentido, Fernando Sousa defende ser necessário, “tal como aqui nos
Açores, levar a água a cada vez mais explorações”. Ou seja, “ter uma
maior superfície agrícola abastecida com água para que em Cabo Verde se
possa desenvolver a agricultura de forma consistente, o que passa
também pelas organizações de produtores”.Fernando Sousa lembra ainda
que, nas formações, “exploramos essa temática, porque é através das
organizações de produtores que os agricultores ganham força para
reivindicar junto do governo e do departamento com responsabilidade na
agricultura, a instalação e a construção de sistemas de abastecimento de
água nas suas explorações”, conclui.