Sara Pinheiro vive na Bulgária e a culpa...é quase do Google
'Açorianos Lá Fora'
18 de dez. de 2017, 22:00
— Miguel Bettencourt Mota
Como é que uma micaelense acaba por
ir trabalhar para a Bulgária?
Realmente, o meu
percurso estava a ser feito na ilha de São Miguel. Mas, de repente,
fui invadida por um pensamento: 'a vida não pode ser só contar o
dinheiro, é preciso vivê-la'. Decidi, então, abrir o Google e
escrevi 'vagas para portugueses no estrangeiro'. O primeiro emprego
que surgiu foi para o Reino Unido. Concorri e, no dia seguinte, a
empresa contactou-me a referir que, de facto, tinham sede no Reino
Unido, mas que a vaga era para a Bulgária...Na altura, confesso, não tinha grandes informações sobre o país, apenas sabia o nome da
capital.
Foi o espírito de aventura,
mais do que o da procura de conquistas profissionais, que a levou a
embarcar nessa odisseia?
Posso dizer que
sim. Nunca estive numa situação de desemprego e sempre consegui
trabalho enquanto vivi em Portugal. Entretanto, sempre tive a ambição
de querer viajar, o que é algo difícil de se fazer quando se vive
numa ilha. A Bulgária pareceu-me um país interessante para poder
fazer isso...Está no meio da Europa, serve de conexão a
vários pontos do mundo e tem um aeroporto bastante internacional.
Além disso, o pacote salarial era muito atrativo. Assim, no início de
junho de 2016, comecei a trabalhar em Sófia.
Como tem sido o seu percurso
profissional?
Já passei por
três grandes empresas internacionais. Comecei na Paysafe, uma
empresa que funciona com pagamentos online e está associada à indústria
do jogo. Trabalhei lá durante um ano e um mês, e fui contratada
para falar na minha língua nativa. Depois, trabalhei na
Microsoft, onde subi também de cargo, acabando por liderar uma equipa
de dez pessoas. Quando o projeto em que trabalhava se deslocou da Bulgária fui, então,
obrigada a procurar trabalho. Agora estou a trabalhar na ServiceSource.
A sua formação
em Turismo tem sido aplicada nestes trabalhos?
Eu comecei a
estudar em Direito, mas não terminei o curso. Quando tirei a
licenciatura em Turismo, não posso dizer que o fiz por querer
trabalhar diretamente na área ...
...Terá sido o contacto
privilegiado com pessoas, o que mais a motivou a enveredar por essa licenciatura?
Exatamente. Até
para ser sincera gosto bem mais da área de marketing e tem sido maioritariamente essa
a vertente que tenho aproveitado do curso. Porque, na verdade, a
licenciatura de Turismo na Universidade dos Açores é bastante
versátil e o que aprendi em marketing tenho podido explorar neste
novo trabalho. Além disso, as soft skills inerentes a ser portuguesa também me têm valido e são muito bem vistas aqui na
Bulgária...
...Que soft skills?
Os búlgaros, do
que posso ver, não têm tanto aquela capacidade de se
desenvencilharem e darem a volta a certas situações. Isso é uma
'escola' que nós portugueses temos...Os búlgaros, muitas vezes,
bloqueiam quando há algo que sai mais da rotina. Há até quem nos
venha pedir conselhos – o meu namorado está também aqui na
Bulgária – sobre como enfrentar e contornar alguns problemas no
trabalho. Portanto, posso dizer que ser portuguesa é uma mais-valia
aqui.
Culturalmente, há uma grande
assimetria? Somos povos muito diferentes?
Esse foi o maior
choque que tive depois de aterrar na Bulgária. Estamos a falar de um
país que esteve sobre a influência do comunismo durante muito tempo
e, por isso, os seus povos são muito frios. Eles não se cumprimentam com
beijos na cara, mas sim com um aperto de mão. Os beijos na cara são
comuns apenas em pessoas com grande afinidade. Pela minha
experiência, para cativar um búlgaro é preciso bastante tempo e
temos de nos empenhar nessa relação. Mas depois, passado esse tempo
e ultrapassadas as distâncias culturais, os búlgaros são pessoas com as quais podemos contar para qualquer coisa.
Para além dos búlgaros, do que é
que gosta na Bulgária?
Gosto
principalmente do verão. Eles têm aqui temperaturas bastante amenas
e o país faz fronteira com o Mar Negro, um sítio excelente. O custo de
vida também é baixo; a moeda é o lev búlgaro, que é duas vezes
mais baixo do que o euro. Portanto, quando um português chega cá, é
como se o seu dinheiro se multiplicasse por dois. Por isso, neste
momento, há quinhentos portugueses a viver na Bulgária.
Convive muito com portugueses, ou
já se entrosou com outras comunidades?
Trabalhando em
empresas internacionais, relacionamo-nos com pessoas dos mais variados pontos do
mundo. Convivemos tanto com búlgaros, como com portugueses e pessoas
de outros países da europa...
...E além da vida profissional?
É habitual no
final do dia de trabalho sairmos todos juntos... Há também aqui
pessoas do Egipto, dos Emirados [Árabes Unidos] e acabamos por estar a lidar com
pessoas de todo o mundo. Não temos a necessidade de estarmos a
marcar encontros só de portugueses.
E como é Sófia? É uma cidade
cosmopolita?
Estamos a falar de
uma cidade onde moram praticamente dois milhões de pessoas. É uma
cidade que tem serviços que funcionam 24 horas por dia. Por isso,
sim. Sófia é uma cidade bastante desenvolvida e apresenta uma rede de transportes muito boa.
E quais têm sido as suas maiores
dificuldades até ao momento?
O facto de estar
muito longe de casa e de ter que apanhar três voos para lá chegar,
tem sido o mais difícil...Até pelo medo que tenho de andar de avião [risos].
Depois é o tal choque de culturas que é mais complicado...
...A língua é um entrave?
Sim, tudo seria
mais fácil se dominasse a língua e o alfabeto (que não é latino).
A língua oficial é a búlgara, mas
a russa também prevalece, não é assim?
Sim, durante o
período de governação comunista, para além da búlgara, as línguas ensinadas eram a russa e a francesa. O ensino do inglês,
nesse período da Guerra Fria, era proibido. Hoje em dia, já se vê
bastante gente a falar inglês, mas os locais ficam algo tímidos se comunicamos com eles apenas em inglês. É sempre bom saber algumas
palavras como 'bom dia', 'boa tarde', 'pode ajudar-me' e 'obrigado'.
A Bulgária
será apenas um ponto de passagem ou em definitivo na sua vida?
Não tenho um
tempo definido para ficar na Bulgária...Será até me sentir bem.
Mas posso dizer que não me vejo a viver definitivamente na Bulgária.
E quanto a
pousar a bagagem em São Miguel?
Duvido. Talvez na
velhice [risos].