Brasil espera eleição menos polarizada, mas campanhas mais agressivas
24 de dez. de 2021, 15:05
— Lusa/AO Online
Em
declarações à Lusa, o analista político brasileiro disse acreditar que a
aprovação da lei que permite a formação de federações partidárias e o
surgimento de nomes fortes na corrida eleitoral, como do ex-juiz Sergio
Moro, farão com que a polarização seja menor no próximo ano, apesar do
favoritismo do atual Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e do antigo
chefe de Estado Lula da Silva, apontados como futuros candidatos
presidenciais."A campanha de 2022 com
certeza será mais equilibrada do que em 2018. Teremos uma campanha muito
agressiva, mas em que o cenário é diferente do de 2018. Toda a deceção
da população brasileira, o apoio à Lava Jato, a questão do
'anti-petismo' [anti Partido dos Trabalhadores] com o Lula preso, foi
tudo concentrado em Bolsonaro em 2018", analisou Baía, indicando que no
próximo ano o cenário será mais plural."Agora
vamos ter Sergio Moro candidato, num momento em que é acusado de ser um
juiz parcial, manipulador, que teve todos os seus atos anulados. Vamos
ter uma campanha contra Bolsonaro em função da política económica e da
questão da pandemia, e uma campanha contra o Lula em que os seus
adversários vão levantar a questão da corrupção", afirmou.Segundo
Baía, também a federação de partidos, um bloco partidário que se forma
para participar na eleição e que tem a obrigação de permanecer junto até
ao final da legislatura, terá um impacto significativo, "uma vez que
formada essa federação para concorrer nos sufrágios de 2022, esse grupo
torna-se um partido federado que vai até 2026"."Essa
questão da federação partidária avança a passos largos agora neste
final de 2021 e início de 2022. Vimos uma movimentação grande feita pelo
Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Socialista Brasileiro (PSB) e
pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Certamente funcionará como
polo aglutinador para formar a maior bancada de deputados federais, o
que era um projeto do PT, e que agora se amplia", disse."Esta
é uma questão que merece atenção porque as federações partidárias visam
já o desenho do jogo parlamentar na Câmara dos Deputados e nas casas
legislativas, mas também estão atreladas a campanhas de governador em
cada estado", acrescentou o politólogo.Apesar
de Luiz Inácio Lula da Silva ainda não ter confirmado a sua
candidatura, ele lidera as sondagens sobre as presidenciais de outubro
de 2022.De acordo com Paulo Baía, que é
também sociólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), as últimas sondagens mostram uma adesão muito forte do eleitor à
candidatura de Lula da Silva e uma candidatura consolidada de
Bolsonaro, posicionado em segundo lugar. Contudo,
segundo o politólogo, a entrada de Sergio Moro na corrida eleitoral
"abala o sistema de competição, aparecendo já em terceiro lugar, mas
faltando-lhe força para enfrentar Bolsonaro e tirá-lo da segunda volta".Para
Baía, será fundamental para Lula conseguir que o ex-candidato
presidencial e antigo governador de São Paulo Geraldo Alckmin aceite ser
seu vice-presidente, porque conseguirá atrair uma parcela de eleitores
que votou em Bolsonaro e que se arrependeu: "Outra parcela irá para o
Moro, mas a desmoralização da Lava Jato é muito grande", salientou.Em
relação à pandemia de covid-19 em 2022, que até ao momento já causou
mais de 616 mil mortes e 22 milhões de infeções no Brasil, o professor
universitário acredita que a postura do Governo não mudará e o
negacionismo do chefe de Estado irá permanecer.Já
no campo económico, o economista brasileiro Alexandre Schwartsman
assumiu, em declarações à agência Lusa, ter "uma perspetiva ruim para o
ano que vem".Schwartsman, ex-diretor de
assuntos internacionais do Banco Central do Brasil, apontou que a
economia do país deverá entrar numa nova recessão, com queda do Produto
Interno Bruto (PIB) de 0,5% em 2022."Por
enquanto, a projeção é de -0,5%, muito por força da perceção de que a
economia hoje já está praticamente estagnada e também por força do
aumento da taxa real de juros, que já subiu para o redor de 6%. Temos
uma taxa de juros muito alta, que deve ter impacto no crescimento a
partir do primeiro para o segundo trimestre do ano que vem", declarou.Do
ponto de vista de inflação, o analista disse estar um pouco mais
pessimista do que o consenso de mercado, que tem uma visão de inflação
na casa dos 5%. "Tenho uma projeção de
inflação para 2022 mais perto de 5,5%. Não é muito pior, mas é pior, e
bem acima da meta, acima inclusive do limite superior do intervalo de
tolerância para a meta de inflação", frisou.Também
o desemprego deverá subir no próximo ano. Na média de 2021, o
desemprego deverá fixar-se em torno de 13% e, no ano que vem, deverá
ficar mais perto de 14%, segundo projeções de Schwartsman.O
ex-diretor do Banco Central admite que 2022 será um ano de "muita
turbulência" no Brasil devido às eleições, mas sublinhou que os
brasileiros "não vão eleger ninguém que vá ter uma postura muito
favorável à continuidade de reformas"."Entre
os candidatos que parecem capazes de serem eleitos, acho que nenhum
deles terá comprado essa ideia de que se precisa de fazer reformas
profundas para o país voltar a crescer", afirmou.Alexandre
Schwartsman recordou que as privatizações, um dos principais projetos
económicos do ministro da Economia, Paulo Guedes, não avançaram nos
primeiros três anos de Governo, e que 2022 não será exceção."Não
aconteceu nada nos últimos anos e não vai acontecer nada em 2022. Nada
de relevante será privatizado. As promessas de privatizações foram um
completo desastre. (...) Não se mexeu na Eletrobras, nos Correios, no
que realmente interessa, como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa
Económica", elencou."Por mais que o
Governo fale que faltam condições políticas, a grande verdade é que em
momento algum se cogitou a sério levar isso adiante. O Paulo Guedes fala
e ninguém leva a sério e muito menos o Presidente da República",
concluiu Schwartsman.