Bote Baleeiro Açoriano já é património cultural nacional

Hoje 10:46 — Rui Jorge Cabral

O Bote Baleeiro Açoriano já está inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.Conforme refere a Câmara Municipal das Lajes do Pico, que teve a iniciativa desta candidatura, a inscrição do Bote Baleeiro Açoriano na lista do Património Cultural Imaterial representa um “importante reconhecimento do valor histórico, cultural e identitário do bote baleeiro açoriano, uma herança profundamente enraizada nas Lajes do Pico”.Em nota de imprensa, a autarquia refere igualmente que “mais do que o reconhecimento de uma embarcação, esta distinção valoriza um património coletivo, construído ao longo de gerações por baleeiros, construtores navais, tripulações e famílias que preservaram e transmitiram conhecimentos, técnicas e práticas que fazem parte da identidade das Lajes do Pico, da ilha do Pico e dos Açores”.Refira-se que a bem-sucedida candidatura do Bote Baleeiro Açoriano a património cultural nacional implica agora o compromisso com a aplicação de um conjunto de medidas de salvaguarda nas áreas, por exemplo, da sensibilização dos jovens, da divulgação, da formação e do estudo do Bote Baleeiro Açoriano.Citada em nota de imprensa, a presidente da Câmara Municipal das Lajes do Pico, Ana Brum, que recebeu a placa de inscrição do Bote Baleeiro Açoriano no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, numa cerimónia que decorreu na Casa das Artes, na cidade do Porto, afirmou que este reconhecimento “é uma homenagem a todos os baleeiros, nos Açores e na nossa Diáspora, e aos guardiões vivos do conhecimento que continuam, ano após ano, a perpetuar a memória e o conhecimento da nossa herança identitária através das regatas”.Um processo com quase três anosA candidatura ‘Bote Baleeiro Açoriano: Arte de Manuseamento e Construção nas Lajes do Pico’ a património cultural nacional começou a ser preparada há quase três anos, no início de 2024.A coordenação desta candidatura foi entregue à investigadora francesa especialista na área do património cultural imaterial, Sophie Coquelin, que vive há quase uma década na Ilha do Pico e é uma apaixonada pelos Açores, tendo aprendido a falar português fluentemente e adquirido inclusivamente a nacionalidade portuguesa. Em declarações ao Açoriano Oriental, Sophie Coquelin recorda que havia já um trabalho importante realizado na recuperação do Bote Baleeiro Açoriano suportado pelos apoios do Governo Regional, mas salienta que “faltava aprofundar a questão do manuseamento e a da construção e fazer algo mais para garantir que as pessoas continuem a entrar nos botes para participar nas regatas e que também continuemos a ter gente a querer construir botes”.Até porque, alerta Sophie Coquelin, “de há 10 anos para cá notou-se uma redução no número de pessoas a entrar nos botes e há menos companhas a participar no remo, que é a modalidade mais complicada, uma vez que implica treinos diários”.A investigadora explica igualmente que “quem está a participar nas regatas são os clubes náuticos. A Câmara Municipal decidiu atuar de forma mais ativa, apoiando os clubes e fazendo um trabalho complementar ao que o Governo Regional já estava a fazer, no sentido de tentar garantir que haja mais gente motivada a entrar nos botes, a remar e também a fazer vela”.Outro fator que Sophie Coquelin considera muito importante com a elevação do Bote Baleeiro Açoriano a património cultural nacional é o de ser dada maior visibilidade “para que haja novos construtores a investir na construção de botes”.Isto porque “os dois construtores atuais já são pessoas com idade avançada e é preciso garantir que haja novas pessoas formadas em carpintaria naval”, alerta Sophie Coquelin, reconhecendo que não é fácil desenvolver esta aptidão nos dias atuais, em que dominam as embarcações construídas em fibra.Necessário mais investimentoPoderá a elevação a património cultural nacional fazer aumentar os apoios que o Governo Regional dá para a construção ou recuperação de novos botes baleeiros?Esta é uma pergunta à qual Sophie Coquelin não consegue responder, mas no entanto não deixa de alertar que “muitos dos botes que hoje estão a ser usados nas regatas datam dos anos 90 ou início dos anos 2000, portanto já têm todos mais de 20 anos, o que quer dizer que vai ser preciso haver mais construções novas ou reparações mais profundas para garantir mais tempo no mar”. Porque os botes que participam em regatas “não são embarcações de museu, têm muito mais desgaste e a grande diferença está aqui”, afirma a investigadora.E também ao nível do turismo, explica Sophie Coquelin, “agora é possível haver, em paralelo, práticas para que os turistas possam descobrir esta embarcação e descobrir este amor que as pessoas têm pelo bote baleeiro”. Atualmente, assinala a investigadora, existem já duas empresas que têm um bote baleeiro para fazer passeios no mar.Regatas já existiam no tempo da baleaçãoA investigadora Sophie Coquelin afirma que, ao contrário do que se possa pensar, as regatas de botes baleeiros não surgiram nos anos 1980, após o fim da caça da baleia, sendo já uma prática corrente desde a década de 1960.Do estudo que realizou para a candidatura a património cultural nacional, a investigadora recorda que “as regatas recreativas, ou seja, as regatas com pessoas que não são baleeiros, iniciam-se nos anos 60, no Concelho das Lajes do Pico e só assim se percebe que elas tenham continuado, independentemente de ter acabado a atividade económica”.E porque é que se faziam estas regatas? Por rivalidades? Sophie Coquelin recorda que o primeiro anúncio que encontrou de regatas com botes baleeiros data de 1891, na ilha do Faial, para a festa de despedida da família Dabney. Nessa altura, salienta a investigadora, a regata serviu para “dar algum protagonismo a certas companhas e armações que estavam a desenvolver a atividade” da caça à baleia.Depois, nos anos 60 do século XX, “havia filhos de baleeiros que entravam nos botes para competir e aqui podemos imaginar um bocadinho que as regatas eram como as equipas de futebol, ou seja, havia uma competição entre as freguesias e entre os portos, que se fazia no mar em vez de se fazer num campo de futebol”.Concluída que está a candidatura a património cultural nacional, a próxima etapa é a UNESCO e a elevação a património mundial.