22 de nov. de 2019, 21:00
— Sónia Bettencourt /AO Online
Falar de livros mas
através do vídeo. Parece confuso para quem as obras literárias,
por norma, são feitas de papel e se ficam por aí. E continuam a
sê-lo, pelo menos neste contexto. A diferença é que a sua crítica
faz-se com um rosto e um comentário pertencente a uma comunidade
criada a partir do famoso canal You Tube.
Na prática, os booktubers
(book = livro + tube = televisão), como são designados, trouxeram
os encantos da leitura para as redes sociais, e Andreia Rosa, da
Praia da Vitória, assim o faz desde 2013 por detrás do canal “A
Croma dos Livros”.
“Na vida real, digamos
assim, tinha pouca gente com quem falar sobre livros. E sentia essa
necessidade. Descobri o booktube internacional e não via ninguém em
Portugal a fazer isso. Então decidi avançar”, conta Andreia Rosa,
formada em Comunicação e Media, no Instituto Politécnico de
Leiria, recordando as suas primeiras amigas virtuais, também
leitoras, nesse grupo de pessoas que cria conteúdos sobre livros
para o YouTube. “Os vídeos também eram uma espécie de troca”,
destaca.
São várias as formas
encontradas pelos booktubers para se expressarem. De opiniões sobre
obras, editoras, passando por leituras, até à mostra das aquisições
mais recentes nas suas prateleiras, as ideias podem ser mais ou menos
“intelectualizadas”. O importante, considera Andreia Rosa, é
cada um fazer ao seu gosto e estilo.
“No início seguia as
tendências, mas agora considero que já tenho um gosto literário
bastante vincado. Portanto já não me importo se está na moda ou
não. Aliás, na verdade, hoje, interessa é cada pessoa assumir o
seu gosto”, salienta a jovem, especificando que, no seu caso, quem
mais recorre ao seu canal são os leitores de poesia por ser o seu
género literário preferido. “Cada um tem o seu espaço, o seu
ninho, e há lugar para todos”, enfatiza.
Já sobre a relação com
as editoras, explica, como o booktuber começa cada vez mais a ser
reconhecido no país, com o aumento de pessoas a aderirem ao YouTube
e a fazerem vídeos acerca de livros, existe a facilidade de
estabelecer parcerias. É a tendência do
momento”, afirma.
Mil vezes sonhar
Com ou sem indicação de
editoras para abordagens de livros, a verdade, diz Andreia Rosa, é
que acabamos sempre por conhecer novas obras. E, por isso,
desvaloriza que essas parcerias possam eventualmente comprometer a
criatividade e a espontaneidade. “Há opiniões que tendem a
agradar, outras são mais genuínas. No fundo, ajuda sempre e dá
para conhecer novos livros”, refere.
Da sua parte, os autores
norte-americanos predominam no seu escaparate pessoal e tem o inglês
como “língua materna” nas suas leituras por desconfiar das
traduções, considerando “tratar-se das palavras já de uma
segunda pessoa e não das do seu criador” - Lang Leav, Stephen King
e Haruki Murakami constituem o seu “top 3” a nível
internacional.
Por cá, divide atenções
entre o continente e os Açores, com os autores José Luís Peixoto e
Joel Neto, respetivamente. Mas, como não há duas sem três, elenca
ainda António Aleixo.
“Estava a ler o
“Arquipélago” em Leiria e consegui visualizar mentalmente a ilha
Terceira. O Joel transmitiu tudo o que é ser da ilha, o que é ser
ilhéu. Para mim, é um livro para a vida”, salienta a jovem. E
acrescenta: “Sinto-me representada num livro pela primeira vez.
Penso que isso motiva e ajuda os mais novos a ligarem-se à
literatura”.
Contudo a sua própria
ligação aos livros é anterior à referida obra do escritor Joel
Neto, bem como a sua estreia nas publicações. Aos 18 anos de idade,
sonhou e a obra nasceu intitulada “A Sonhadora”, pela chancela da
Edições Vieira da Silva. Segundo a sinopse do livro, “é uma
história, num lugar não muito distante para qualquer um de nós,
onde vive a Sonhadora agarrada às estrelas”.
Passados sete anos desde o
lançamento do livro, recorda-se as palavras finais da mesma sinopse:
“um dia, perguntaram-lhe para onde iria ela. Sorrindo, respondeu,
até onde o sonho me levar”.
O sonho, pelos vistos,
levou Andreia Rosa até Leiria ao encontro dos seus estudos
superiores, e, naturalmente, teve de adaptar o que havia sonhado até
então. A seguir vieram as viagens do programa Erasmus, Polónia e
Hungria, em 2015 e 2016, e o mundo – real e literário – nunca
mais foi visto e sentido da mesma maneira. Mas, diz a máxima, “nada
se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
“Depois de entrar para a
Universidade, direccionei a escrita para o jornalismo e foi-se
apagando o gosto pela escrita criativa. Mas estou a pensar novamente
em escrever”, adianta.
Booktubers nas feiras do
livro
Para Andreia Rosa, as
mais-valias de pertencer a estas comunidades na internet são
sobretudo a nível de enriquecimento pessoal e cultural, pois o
conteúdo é enorme, diversificado, e pode ser debatido e partilhado
à semelhança de uma espécie de “tertúlia”.
“Muitas vezes
organizamos maratonas literárias, tudo online. Vamos partilhando
experiências, pensamentos e recomendações”, conta a booktuber
açoriana, recordando que, por outro lado, já organizou com colegas
encontros do género, reais e fora do contexto académico, em Lisboa
e Leiria.
E quando acontece o 14.º
Outono Vivo – Feira do Livro, na Praia da Vitória, e que traz à
cidade nomes como José Luís Peixoto, Miguel Sousa Tavares,
Laborinho Lúcio e Elisabete Jacinto, impõe-se a pergunta: que lugar
ocupa um evento destes na vida de um booktuber?
“As nossas carências no
mundo físico fizeram-nos passar para o digital. Mas agora o online
está tão presente que o pessoal começou a sentir falta do espaço
físico. No fundo há lugar para tudo”, explica a jovem,
salientando que já se organizam clubes de leitura físicos para
promover o encontro real das pessoas.
“Então, as feiras do
livro são uma boa desculpa para sairmos de casa. Claro que levamos
as câmaras de filmar e os telemóveis para o registo dos conteúdos”,
destaca.
Neste sentido, a “Croma
dos Livros” diz não ter faltado ao certame literário da Praia da
Vitória, que considera “espetacular e de elevada qualidade”, e,
inclusive, marcou presença na apresentação do livro
“Autobiografia” de José Luís Peixoto.
Na percetiva da booktuber,
e deixando a sugestão à Câmara Municipal da Praia da Vitória,
entidade organizadora do evento, seria interessante o programa conter
a presença de criadores de conteúdo online de literatura.
“O que eu gostava não é
novo, existe em Lisboa, é juntar os criadores de conteúdos online
de literatura com os autores de livros, num espaço parecido com uma
tertúlia. Seria a união dos dois lados: físico e virtual”,
sugere Andreia Rosa, enaltecendo a aposta na “rica apresentação
de livros”. “Mas só ficamos a ver. Assim, nós booktubers,
também podíamos enriquecer essa parte para termos o feedback dos
leitores”, avança.
O sonho comanda a vida,
diz António Gedeão, e assim a sonhadora mais sonhadora de todas,
assumida literariamente aos 18 anos com o seu conto, além da
promoção da leitura na internet, pretende investir na escrita e
produção de documentários para revelar “o pequeno grande mundo
dos Açores”. “Temos muito talento por cá”, afirma Andreia
Rosa.