Bombeiros “muito apreensivos” com instabilidade política
26 de fev. de 2024, 09:16
— Paulo Faustino
A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de
Ponta Delgada (AHBVPD) assume estar “muito apreensiva” com a
instabilidade política que se vive nos Açores e a possibilidade de serem
necessárias novas eleições regionais, ameaçando “parar tudo” no dia em
que faltar o dinheiro.Segundo o presidente da corporação, a maior do
arquipélago, a situação atual - no cenário de se prolongar a ausência
de plano e orçamento da Região “por quase um ano” - coloca em causa a
sua sustentabilidade e sobrevivência, assim como da generalidade das
associações de bombeiros açorianas.“Nada está fora de questão. No
dia em que faltarem as verbas para pagar os vencimentos dos bombeiros,
no dia em que por ausência de investimento público, aguardado há muito
tempo, quer na aquisição de ambulâncias, quer na aquisição de viaturas
de combate a incêndios, quer mesmo na realização de obras inadiáveis e
imprescindíveis no quartel, como é o caso da substituição dos geradores
do posto de transformação da EDA (com mais de 25 anos de existência e
completamente obsoletos, sendo necessário um investimento direto de
cerca de 80.000,00 €), não temos qualquer dúvida que nessa altura iremos
parar tudo; parar tudo”, diz João Paulo Medeiros, frisando que “nenhuma
ação está colocada de parte”.O líder associativo elenca a lista de
problemas que surgirão na AHBVPD com uma possível nova crise política:
investimentos suspensos, salários em risco e carreiras congeladas e sem
perspetivas de resolução. Neste caso, devido à não aprovação do
Orçamento da Região para 2024, as tabelas salariais dos bombeiros
açorianos não foram atualizadas, fazendo com que os seus vencimentos, na
carreira base, estejam apenas um euro acima do salário mínimo regional
(862 euros quando o SMR é de 861 euros). “Isso faz sentido para
alguém?”, questiona.Para João Paulo Medeiros, “é impensável e não se
percebe como é que os políticos da nossa terra colocam sequer essa
hipótese”. Ou seja, a não aprovação dos documentos fundamentais no
Parlamento que levaria, de novo, a um orçamento em regime de duodécimos
nos Açores. Indo por esse caminho - faz notar - ignoram “os apelos das
instituições, das famílias, das empresas, das associações como a AHBVPD,
que dependem muito, não em exclusivo, mas em grande parte, de
investimentos públicos e de pagamentos do setor público, para cumprirem
com a sua missão de socorro e proteção de pessoas e bens”.Na sua
perspetiva, não é viável que organismos públicos da esfera
governamental, como é o caso - além das associações humanitárias - de
hospitais, centros de saúde e do próprio Fundo de Coesão (que procede ao
reembolso dos apoios ao combustível), consigam pagar aos seus
fornecedores vivendo mensalmente, durante quase um ano, em duodécimos.
“Isso cabe na cabeça de algum decisor político? Há necessidade de
coerência, de valorização do bem público e não dos egos de cada um e de
jogadas políticas que ignoram a sociedade e os apelos desta. Isto são
políticos que não servem o propósito da política e, como tal, não são
merecedores do voto democrático do povo”, ressalva.Os ‘soldados da
paz’ garantem que estão atentos ao que se passa e aos desenvolvimentos
nas próximas semanas porque, na verdade, “tudo está em aberto” e não
excluem nenhuma forma de luta, de sensibilização e de alerta junto dos
políticos. Num espírito de “conjunto” e “em força”. Daí que insistam
nos reparos: “é preciso que tenham noção da realidade e se deixem de
demagogias e utopias, como a imposição, de um dia para o outro, por
exemplo, do endividamento zero. Isso é impossível de acontecer e só
prejudica a capacidade de realização de investimentos produtivos, com
apoios comunitários, por exemplo, ou então à custa da retenção e atraso
de pagamentos aos fornecedores”.