Bolsas de estudo só chegam "aos muito pobres" impedindo muitos alunos de estudar
21 de nov. de 2024, 11:05
— Lusa/AO Online
“É
preciso ser-se muito pobre para se ter acesso a uma bolsa de estudo”,
alertou Alberto Amaral, coordenador científico do Conselho Consultivo do
Edulog, que hoje divulga o estudo “Cartografia e dinâmicas
socioeconómicas dos estudantes do ensino superior do Grande Porto e da
Grande Lisboa”. Nos últimos anos, as
regras para aceder às bolsas de estudo têm vindo a ser alargadas,
abrangendo cada vez mais alunos, mas os investigadores defendem que os
critérios “continuam muito restritivos” e os valores “insuficientes para
fazer face a todas as despesas”.Atualmente,
as famílias com um rendimento anual per capita superior a 12 mil euros
são excluídas, deixando “muitos estudantes de fora, às vezes, só por cem
euros”, alertou a investigadora Maria José Sá e uma das autoras do
estudo, em entrevista à Lusa.Quatro em
cada 10 alunos estudam longe de casa e os custos de estar deslocado
podem chegar facilmente aos mil euros mensais, segundo o estudo que
analisou as condições socioeconómicas dos estudantes que em 2023
frequentavam instituições de ensino superior (IES) das regiões de Lisboa
e do Porto.Com base em entrevistas
realizadas a alunos e a responsáveis dos serviços das IES, como foi o
caso dos serviços de ação social, a investigadora conclui que “o ensino
superior continua a não ser acessível a todos”, uma vez que quem não tem
direito a bolsa não tem dinheiro para estudar longe de casa e “fica de
fora”. “É fácil não obter a bolsa, porque o
limiar para a atribuição da bolsa é muito baixo. As famílias com pais
empregados facilmente ultrapassam esse limiar. Muitos dos que desejam
seguir estudos não têm possibilidade de o fazer ou fazem-no tendo um
emprego em part-time”, sublinhou.O
problema de acumular os estudos com trabalho está associado a um “maior
risco de abandono”, refere o relatório, apontando os estudantes mais
desfavorecidos como os mais visados nesta modalidade, porque precisam de
financiar os seus estudos. As associações
de estudantes, os serviços de ação social e outras entidades das
instituições ligadas aos alunos têm “recebido imensos pedidos de apoio e
as bolsas nunca são suficientes para os pedidos”, revelou a
investigadora, acrescentando que entre aqueles responsáveis existe a
“perceção de que muitos ficam à porta”. Há
histórias de alunos que não se candidatam ao ensino superior por
incapacidade financeira, outros que não conseguem uma vaga mas também
daqueles que tiveram um bom desempenho académico para chegar ao ensino
superior, “mas como não conseguem aceder à bolsa acabam por ficar de
fora logo à partida ou então no fim do primeiro ano”, alertou a
especialista.As dificuldades financeiras
também “colocam os estudantes perante um dilema enorme que é desistir ou
transferirem-se para outro curso”.Entre
os que aceitam ficar a estudar mais perto de casa, também há casos de
“abandono no final do primeiro ano” porque “entraram num curso que não
queriam”, contou Maria José Sá.O trabalho
também encontrou dificuldades no dia-a-dia dos alunos apoiados. Alberto
Amaral diz que a maioria dos bolseiros recebe um valor que serve apenas
para “o pagamento das propinas, razão pela qual esse apoio deveria ser
revisto e aumentado”.Para os
investigadores, é urgente mudar as regras para que as bolsas cheguem a
mais alunos e com valores mais elevados, mas também são precisos mais
quartos a preços acessíveis.Os
investigadores recomendam ao governo a criação de mais alojamentos
subsidiados, o aumento das bolsas de estudo e a revisão dos critérios de
elegibilidade podem melhorar significativamente a experiência dos
estudantes, diminuindo o peso das despesas pessoais.Maria
José Sá salientou que o estudo retrata a realidade das regiões de
Lisboa e do Porto, onde se encontra a maioria das instituições de ensino
superior e mais de metade dos alunos a frequentar o ensino superior, e
que no resto do país o cenário será diferente.