Bloqueio prolongado na UE será “fratura exposta” de “consequências gravíssimas”
17 de nov. de 2020, 18:54
— Lusa/AO Online
“Seria
irrealista se viesse aqui com uma posição otimista relativamente a esta
última crise”, disse Augusto Santos Silva a propósito do bloqueio
imposto na segunda-feira pela Hungria e pela Polónia à aprovação do
Quadro Financeiro Plurianual por não concordarem com o mecanismo que
condiciona o acesso aos fundos comunitários ao respeito do Estado de
Direito. O ministro, que falava na
comissão parlamentar de Assuntos Europeus, resumiu depois aos
jornalistas, à saída da audição, o que espera do Conselho Europeu desta
quinta-feira, que reunirá os líderes dos 27 por videoconferência.Apontando
que a reunião é informal, Santos Silva considerou que “o mais urgente” e
“indispensável” é que chefes de Estado e de Governo “possam ter uma
reflexão muito ativa e uma discussão franca” para que “a superação desse
impasse possa ocorrer”.“Se conseguirem
passar já essa fase, melhor, mas pelo menos uma reflexão e um debate
franco sobre as razões que levaram ao impasse, e o que é que pode
superá-lo, parece-me indispensável e estou certo de que vai ocorrer”,
acrescentou.No diálogo com os deputados, o ministro salientou que “a permanência desta situação de bloqueio terá consequências gravíssimas”.Por
“ordem de importância”, apontou, a UE entrará em orçamento por
duodécimos, os esforços para reunir mais fundos para responder à crise
ficarão comprometidos, a preservação e salvaguarda do mercado interno
ficará limitada, Hungria e Polónia pagarão um preço institucional e
político e a credibilidade da União perante os cidadãos será muito
afetada.“Há um problema de credibilidade
ligado ao modo como cidadãos, as opiniões publicas, as partes
interessadas, os trabalhadores, as empresas, as ONG, as sociedades
civis, os parlamentos nacionais, o povo europeu, olhará para esta
fratura, que será mesmo uma fratura exposta , com uma metáfora muito
crua, e exposta num dos órgãos mais importantes do corpo europeu”,
frisou.O bloqueio da Hungria e da Polónia,
que discordam do mecanismo de condicionalidade, aprovado por maioria
qualificada, e por isso recusam dar o seu voto a decisões, com as quais
concordam, mas que exigem unanimidade, dominou a audição do ministro.PSD,
BE e PCP, de formas diferentes, aludiram às reservas manifestadas pelo
Governo português à associação das questões do Estado de Direito às
questões financeiras da UE, com o PSD e o BE a caracterizarem o veto
húngaro e polaco como “retaliação”, palavra que Santos Silva considerou
adequada, e o PCP a frisar que “desde o princípio” questionou se medidas
deste tipo não “dão campo a extremas-direitas e populismos”. Nas
respostas, o ministro frisou como “o pior que se poderia fazer” e
“absolutamente irrealista partir de outra base” que não seja o acordo
alcançado pelos líderes europeus em julho e defendeu que é sobre o
acordo alcançado entre o Parlamento Europeu (PE) e o Conselho que se
deve trabalhar.Santos Silva explicou que
esse acordo prevê um mecanismo de condicionalidade “garantindo um travão
de emergência e prevendo justamente que incumprimentos graves das
regras do Estado de Direito […]possam ter como consequência certas
medidas de limitação do uso por parte desse Estados-membros de recursos
financeiros da União” e que é “contra esta lógica” que os dois países se
levantam.Para ultrapassar o diferendo,
defendeu, numa “lógica não confrontacional”, deve-se “tentar compreender
os argumentos destes dois Estados-membros”, designadamente o de que o
mecanismo “é impreciso do ponto de vista jurídico”, não protegendo os
países de um “livre arbítrio” na avaliação da respetiva situação.“Temos
de apoiar o esforço da presidência alemã para ver se este mês, ou no
limite até ao fim do ano, consegue mostrar a estes Estados-membros que
as dúvidas são infundadas”, disse.Nas
declarações que fez depois à imprensa, e questionado sobre se essa
demonstração pode ter de passar por algum tipo de compromisso escrito, o
ministro afirmou que “há instrumentos no processo de decisão europeu
que, se for esse o caminho, podem ser ativados sem pôr em causa nem o
acordo do Conselho Europeu de julho nem o acordo com o PE”.