Bispo de Angra participa nas festas como peregrino entre o povo
Hoje 10:24
— Ana Carvalho Melo
O bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, que pelo quarto ano participa nas Festas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, faz questão de sublinhar que regressa como um peregrino entre o povo.“Cada ano é sempre novo e eu coloco-me como se não soubesse nada, porque acho que acontece também com cada peregrino, com cada pessoa que tem necessidade de se encontrar com o rosto de Cristo”, afirmou, em entrevista ao Açoriano Oriental.Para o prelado, a experiência das festas é, antes de mais, uma experiência pessoal de fé.“Também eu me sinto muito peregrino. Quero caminhar, quero rezar, quero comungar como Cristo comungou com os doentes”, disse, recordando a missa dos doentes celebrada na sexta-feira na Igreja de São José, “repleta de idosos e doentes”.E neste contexto recordou que a primeira vez que participou nas festas ficou marcada por uma imagem que diz nunca ter esquecido: a dos peregrinos a passar diante da Imagem do Senhor Santo Cristo e a derramar lágrimas em silêncio.“Lembrarei sempre o que é este passar diante da Imagem, fixá-la, e tantos derramarem uma lágrima”, confessou.Antes de assumir o episcopado, o bispo de Angra já tinha visitado o Santuário da Esperança e visto a Imagem do Ecce Homo, mas nunca tinha vivenciado esta manifestação de fé. A conclusão foi inequívoca: “Aqui há todo um povo que se identifica com o seu Cristo. (...) E tem se confirmado a cada ano que não conheço no mundo e não se repete facilmente aquilo que se repete aqui. É único este fenómeno. É preciso vivê-lo.”Sobre o lema das Festas de 2026, “Que dizes de ti mesmo?”, o prelado afirma que é “mais do que um desafio, uma provocação”.Nesse sentido, D. Armando Esteves Domingues explica que a pergunta se dirige a cada batizado, independentemente do estado de vida, da profissão ou da saúde: “Tu que um dia te identificaste com Cristo, foste batizado nas águas e renasceste pelo Espírito Santo, que é que dizes deste Deus que está a crescer em ti, que te constrói, que te reconstrói e que te conhece e te ama assim como és?”E afirma mesmo que, enquanto bispo de Angra, não se isenta do desafio. “A mim como bispo também me incomoda muito. O que é que eu digo desta Igreja onde procuro dar a vida?”, admitiu, com honestidade.Para D. Armando Esteves Domingues, o lema aponta para uma urgência do mundo contemporâneo: menos discursos feitos, mais testemunhos genuínos. “O mundo precisa disto. Não de discursos já feitos, mas de ti. Que estrada está Deus a fazer em mim?”Ainda nesta entrevista ao Açoriano Oriental, o bispo de Angra fez um balanço de como está a decorrer o processo de beatificação da Madre Teresa da Anunciada, figura central na história do culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres.D. Armando Esteves Domingues confirmou que o processo foi “reiniciado com novas forças” e que os estudos históricos estão em curso, com abertura a convidar mais investigadores. “Mexemos em qualquer canto e há novidades”, afirmou.O bispo de Angra explicou que, após a fase histórica, seguir-se-á uma análise aprofundada do pensamento e dos escritos da Madre Teresa da Anunciada, preparando o chamado estudo teológico. E nesse sentido, D. Armando Esteves Domingues sublinhou que o povo é “o grande depositário da mensagem” e recordou a dimensão histórica extraordinária do culto.“Estamos a falar de um tempo em que não havia internet nem aviões, e chegaram aqui referências de nobres estrangeiros, de casas reais”, explicou.E conclui frisando que o objetivo não é desviar o olhar do Senhor Santo Cristo, porque “é Ele que nos salva. Foi por Ele que a Madre Teresa viveu e entregou a vida.”