Biden lidera Cimeira para a Democracia com mais de 100 países convidados
7 de dez. de 2021, 12:59
— Lusa/AO Online
“A América está de volta”, pronunciou
solenemente Biden, quando chegou à Casa Branca, em janeiro, assegurando
que os Estados Unidos regressariam aos palcos mundiais para liderar um
grupo de democracias empenhadas em fazer frente às ambições
expansionistas dos países autocráticos, em particular a China.Na
cimeira virtual - marcada para os próximos dias 09 e 10 e organizada a
partir de Washington - o Presidente norte-americano vai reunir líderes
de governos, mas também do setor privado e de organizações civis, num
esforço global para defender as democracias contra o autoritarismo, a
corrupção e os ataques sistemáticos aos direitos humanos.A
mais recente edição do Relatório Global sobre o Estado da Democracia -
do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Social
(International Idea), com sede em Estocolmo – divulgado em novembro,
revela que o mundo está a tornar-se mais autoritário e que os governos
democráticos estão a retroceder, com o recurso a práticas repressivas e o
enfraquecimento do Estado de Direito.O
relatório mostra que o número de Estados democráticos onde se
verificaram retrocessos nos parâmetros avaliados duplicou na última
década, incluindo países como os Estados Unidos e alguns países da União
Europeia, como a Hungria, a Polónia e a Eslovénia.Com
a Cimeira para a Democracia, Joe Biden procura combater esta tendência
de degradação das democracias no planeta, apresentando-a como uma
espécie de frente de países livres contra as tiranias e os populismos.Por
isso, alguns grupos de defesa de direitos humanos criticam a listas de
países convidados, questionando a legitimidade da presença de alguns
regimes cujas referências democráticas são, no mínimo, discutíveis: como
a República Democrática do Congo, o Paquistão, o Iraque, a Índia ou as
Filipinas.O regime do Presidente filipino,
Rodrigo Duterte, que tem sido acusado de sistemáticos ataques aos
direitos humanos, ou o do Presidente indiano, Narendra Modi, que o
‘think tank’ Freedom House considera que está a levar o país para o
autoritarismo, são exemplos que organizações internacionais apontam como
contraditórios com o espírito da Cimeira para a Democracia.Um
funcionário do Departamento de Estado norte-americano, envolvido na
organização da cimeira virtual, explica que a lógica dos convites não se
prendeu apenas com a avaliação do grau de democraticidade dos países ou
dos líderes, lembrando que houve igualmente uma preocupação com a
diversidade regional. Aplicando a grelha
de análise da Freedom House, o lote de países convidados integra 69% de
países com regimes livres, 28% de países com regimes parcialmente livres
e 3% de países com regimes autoritários.Em
termos geográficos, o hemisfério ocidental tem 27 países, além de 39
países da Europa (incluindo Portugal). Todos os membros da União
Europeia irão participar na cimeira, exceto a Hungria, que não foi
convidada.Segue-se a região da Ásia-Pacífico, com 21 países, e da África Subsaariana com 27.As
regiões menos representadas na cimeira são o Médio Oriente (só Israel e
o Iraque foram convidados), o Norte de África e a Ásia central.A
nível da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, participam ainda
Angola, Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Moçambique não foram convidados.A China, Cuba, Guatemala, Venezuela e Rússia são outros países que ficaram de fora.Os
críticos da Cimeira para a Democracia questionam a eficácia do encontro
e perguntam o que poderá ser atingido em apenas dois dias de uma
reunião em formato virtual, além de denunciarem o teor abstrato dos
objetivos colocados.Lisa Curran,
investigadora de Política Internacional da Universidade de Colúmbia,
defende a iniciativa, lembrando que pode ser um primeiro instrumento
para criar uma “frente de combate democrático”, numa altura em que
organizações como as Nações Unidas estão enfraquecidas.“Há
também o problema chamado China. Os Estados Unidos já perceberam que
não podem contrariar o crescimento hegemónico chinês sozinhos. Precisam
de aliados e precisam de liderar movimentos democráticos contra os
autoritarismos”, explicou Curran, em declarações à Lusa.Nuno
Gouveia, especialista em política norte-americana, recorda também os
objetivos internos de Biden, defendendo que a cimeira pode ajudar a
contrariar o desgaste de popularidade que o Presidente dos EUA tem
sofrido, em particular após a conturbada saída de tropas do Afeganistão.Mas é, sobretudo, no tabuleiro da afirmação externa que Biden joga a cartada da cimeira.“Biden
tem tentado convencer os aliados ocidentais, sobretudo na Europa, a
juntarem-se a uma grande aliança contra a China, numa tentativa de
limitar a influência chinesa no mundo. Esta cimeira é mais uma ação
dentro dessa estratégia, onde até não faltou o convite a Taiwan”,
explicou Nuno Gouveia.“Vai ser um teste ao
mantra de Biden “America is Back”, de que os Estados Unidos voltariam à
liderança global sob o seu mandato para enfrentar as forças
autoritárias lideradas pela China e pela Rússia”, corroborou à Lusa
Felipe Pathé Duarte, professor da Nova School of Law.Numa
conferência de imprensa de antevisão do encontro, Dana Banks,
assistente especial do Presidente norte-americano, disse que a
iniciativa visa a adoção de compromissos e iniciativas para reavivar a
democracia em todo o mundo.“O regresso a
princípios democráticos é a chave para abordar a crise climática, sair
da pandemia ou assegurar que os impactos da corrupção não afetam as
vidas dos mais vulneráveis”, declarou a diretora para África no Conselho
de Segurança Nacional dos EUA, adiantando esperar-se que do encontro
saiam “compromissos ambiciosos, realistas e concretos”.