Bebé de grávida em morte cerebral nasceu hoje no Hospital de São João no Porto
28 de mar. de 2019, 14:08
— Lusa/AO Online
A
mãe da criança estava internada no CHUSJ “em morte cerebral, mantida em
suporte orgânico até se atingirem as condições de maturidade fetal
necessárias para a realização do parto”, informou na quarta-feira aquele
hospital.A unidade hospitalar indicava
ainda que “a família tem sido informada do evoluir da situação e do
plano previsto”, que previa que o parto acontecesse na sexta-feira.De
acordo com o Jornal de Notícias, a mãe da criança, de 26 anos, teve um
ataque de asma e ficou em morte cerebral quando estava com 12 semanas de
gravidez, tendo sido mantida em suporte orgânico de vida até a criança
atingir as 32 semanas de gestação.Este é o
segundo bebé a nascer em Portugal com uma mãe em morte cerebral. O
primeiro, Lourenço, nasceu em 2016 no Hospital de S. José, em Lisboa,
depois de a respetiva comissão de ética ter concordado manter a mãe
ligada às máquinas até às 32 semanas de gravidez.Naquele
caso, o feto sobreviveu 15 semanas na barriga da mãe que estava em
morte cerebral depois de ter sofrido uma hemorragia intracerebral, tendo
sido o período mais longo alguma vez registado em Portugal. Médicos
e membros do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida
ouvidos esta semana pelo jornal Público afirmaram não ter dúvidas de que
prolongar artificialmente as funções vitais da mãe faz sentido, desde
que a família concorde, uma vez que há um valor preponderante, que é o
de uma vida, a da criança.O presidente da
Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, Luís
Graça, disse ao diário que optar por deixar crescer um feto no útero da
mãe em morte cerebral faz todo o sentido. “Se podemos salvar um ser vivo, não há dúvidas nem discussões éticas a fazer-se”, defendeu.Gonçalo
Cordeiro Ferreira, que preside à Comissão Nacional de Saúde Materna, da
Criança e do Adolescente observou, em declarações ao jornal, que “cada
caso é um caso com as suas peculiaridades”, pelo que “não há
jurisprudência ética”.O médico defendeu
que esta é uma situação que levanta não apenas questões éticas mas
também técnicas, descrevendo que os cuidados intensivos e de obstetrícia
“têm que fazer o milagre” de reproduzir as condições e as substâncias
necessárias à gestação do bebé com a mãe em suporte avançado de vida.Miguel
Oliveira da Silva, ex-presidente do Conselho Nacional de Ética para as
Ciências da Vida (CNECV), afirmou ao Público que, “se se pode salvar a
criança”, acha “muito bem”.Acrescentou que
há “pouquíssimos casos deste tipo no mundo” e que ninguém sabe quais
serão as consequências deste processo, sobretudo a nível psicológico”,
notando que, “ponderando todos os riscos, trata-se sempre de uma criança
que vai poder viver".