BE exige mais transparência na nomeação de cargos no Governo dos Açores
19 de jan. de 2023, 17:09
— Lusa
“No
que respeita à transparência, ou melhor, à falta dela, este governo tem
sido profícuo. A começar pelas bem pagas e abundantes nomeações que
tanto criticavam e que incluem uma verdadeira teia de ligações
familiares”, denunciou o dirigente bloquista, durante uma declaração
política feita no parlamento, na cidade da Horta.António
Lima referia-se ao recente caso da nomeação da mulher do secretário
regional da Agricultura, Fernanda Ventura, para diretora dos serviços de
Apoio ao Investimento e à Competitividade, integrada na Direção
Regional do Desenvolvimento Rural, tutelada pelo marido, António
Ventura.“Este caso levanta dúvidas pela
falta de transparência do concurso”, considerou o deputado do BE,
lembrando que, além de não ter sido publicada a ordenação dos
candidatos, o júri do concurso também era constituído por trabalhadores
do mesmo departamento governamental.Para o
BE/Açores, “ninguém pode ser prejudicado por ser familiar de um
governante”, mas também “ninguém pode ser beneficiado por isso”,
concluindo que, em última análise, é sempre bom, em democracia, “que não
haja dúvidas, nem suspeitas de favorecimento”.“O
Bloco vai apresentar uma proposta para criação de um portal das
nomeações e uma proposta para criação de uma comissão para o
recrutamento de dirigentes da administração pública”, anunciou António
Lima, justificando assim a sua opção: “não aceitamos este pântano,
incoerência, inação e impunidade de quem governa”.Em
reação às críticas do Bloco de Esquerda, o secretário regional das
Finanças e Planeamento, Duarte Freitas, disse que “não” é correto
“alimentar uma cultura de suspeição”, defendendo que a “análise dos
casos” seja também feita com “transparência”.“A
nós, interessa, mais do que a ninguém, e de uma vez por todas,
resolvermos a questão das nomeações”, insistiu o governante, adiantando
que, até finais de fevereiro, irá reunir, pela primeira vez, o Conselho
Consultivo da Administração Pública Regional para debater esta questão,
entre outras matérias.Apesar de tudo,
Duarte Freitas entende que “a competência é que importa”, insistindo
numa frase já dita pelo deputado bloquista: “ninguém pode ser
beneficiado, mas também ninguém deve ser prejudicado”.Já
Nuno Barata, da Iniciativa Liberal, recusou discutir esta matéria,
acrescentando que o seu partido analisa a “competência” e não os “nomes”
de pessoas, considerando que António Lima “demonstrou não ter
competência” ao levantar estas suspeições no parlamento.Já
o líder parlamentar do PS, Vasco Cordeiro, entende que este episódio
que envolve a mulher do secretário regional da Agricultura, tal como
outros casos que, entretanto, vieram a público, não dignificam o governo
liderado pelo social-democrata José Manuel Bolieiro, que, estando
presente na sala de plenário, não se pronunciou sobre esta polémica.“Tenho
muita pena, como deputado e como açoriano, que o senhor presidente do
Governo tenha desperdiçado esta oportunidade para se levantar, dar o seu
entendimento sobre esta matéria e, num exercício de liderança, ajudar a
credibilizar o seu governo e a nossa autonomia”, lamentou o deputado
socialista.Paulo Estêvão, do PPM,
criticou, por seu lado, as “suspeições” lançadas sobre pessoas que, na
sua opinião, podem “manchar” a “honra e dignidade” dos candidatos,
considerando “profundamente errado” que os familiares dos políticos
sejam penalizados no acesso a concurso públicos.“O
meu filho, que é licenciado em direito, agora neste momento, não
pode concorrer porque, se concorrer, há suspeição. Se ganhar um
concurso, ganha porque é filho do Paulo Estêvão”, exemplificou, de forma
irónica, o parlamentar monárquico, considerando que “isto é
inadmissível” e “não é o caminho certo para a democracia dos Açores”.O
deputado do Chega, José Pacheco, lembrou que solicitou, por
requerimento, esclarecimentos ao Governo Regional de coligação (PSD,
CDS-PP e PPM) sobre o caso da nomeação da mulher do secretário regional
da Agricultura e que aguarda ainda por respostas.“Queremos
mérito, queremos transparência e queremos que os açorianos não estejam
constantemente nas mesas do café, a enxovalhar A, B e C”, disse o
parlamentar de extrema-direita, lembrando que “à mulher de César, não
basta ser séria, é preciso também parecer”.Pedro
Neves, do PAN, recordou que a nomeação de familiares dos membros do
Governo ou de titulares de cargos políticos, é uma matéria complicada,
por mais transparência que possa existir nesses processos: “Estamos
expostos publicamente e vai sempre haver desconfiança do povo, quando há
familiares envolvidos”.O deputado do CDS,
Rui Martins, saiu em defesa do Governo de coligação, garantido que o
executivo do PSD, CDS-PP e PPM “pugna pela legalidade e pela ética”,
lembrando que “não há nomeações política diretas de familiares de
membros do governo para os seus gabinetes”, mas apenas concursos
públicos transparentes.“É um desrespeito
ao parlamento vir aqui alimentar suspeições sem concretizar. É uma
vergonha!”, insurgiu-se o deputado centrista, garantindo que não há
situações de “corrupção” no Governo Regional.O
líder parlamentar do PSD, João Bruto da Costa, lamentou que o deputado
do BE tenha levantado apenas “processos de intenções” e “suspeições”
contra pessoas, de forma “infundada”.“Esta
declaração política do Bloco de Esquerda, é um resumo daquilo que é a
forma do BE de estar na política, levantando processos de intenções
sobre pessoas, sem cuidar, sequer, de se informar sobre os factos, com
incorreções e ‘fake news’, que serve, apenas para denegrir pessoas. É
lamentável!”, insistiu o parlamentar social-democrata.Recorde-se
que a mulher do secretário regional da Agricultura recusou, entretanto,
assumir o cargo de diretora dos serviços de Apoio ao Investimento e à
Competitividade, na sequência da polémica, na comunicação social, em
torno deste concurso público.