Banco de Portugal pede cautela à banca no crédito à habitação
6 de dez. de 2017, 16:55
— Lusa/AO online
"Os
desenvolvimentos do preço no mercado imobiliário podem acarretar riscos
para a estabilidade financeira na medida em que conduzem ao relaxamento
dos critérios de concessão de crédito à habitação num contexto de
elevado endividamento das famílias", avisa o Banco de Portugal no
Relatório de Estabilidade Financeira, hoje divulgado.Segundo
o banco central, são muitas as famílias com "endividamento muito
elevado face ao seu rendimento", sendo mais vulneráveis aquelas com
menores rendimentos, o que as coloca numa situação especialmente difícil
caso haja algum corte do nível de rendimento [por exemplo, em caso de
desemprego] ou um aumento das taxas de juro.Assim,
diz, "importa assegurar que as atuais dinâmicas do crédito à habitação e
da economia, em particular do mercado imobiliário, não comprometem, por
um lado, a redução do ainda elevado rácio de endividamento dos
particulares, e, por outro lado, não promovem a acumulação de risco
excessivo no balanço dos bancos e a excessiva alocação de recursos da
economia no setor imobiliário".O
Banco de Portugal pede assim, que os bancos baseiem as suas decisões de
conceder crédito a "análises adequadas da capacidade de serviço da
dívida por parte dos clientes", em particular caso haja uma evolução
desfavorável da economia e das condições financeiras, como aumento das
taxas de juro.Já
no comunicado que acompanha o relatório, o Banco de Portugal vai ainda
mais longe e diz mesmo que "pondera adotar medidas com vista ao reforço
da avaliação, pelas instituições de crédito, da capacidade creditícias
dos mutuários particulares".O
banco central não especifica de que medidas se trata, mas serão
dirigidas aos devedores, como aumento das garantias prestadas, o que
poderá dificultar o acesso ao crédito de clientes mais endividados.O
relatório hoje divulgado diz ainda que a percentagem de famílias
financiadas por crédito para comprar casa era em junho deste ano de 45%,
mais do dobro do valor mínimo de 20% em 2013, mas abaixo dos 65% de
2009.Ainda
segundo o Banco de Portugal, os preços do imobiliário residencial
cresceram cerca de 20% entre final de 2013 e junho de 2017. Apesar
deste aumento, o banco central considera que os preços das casas a
nível nacional estão "próximos dos níveis justificados pelos
fundamentos", mas não afasta a "possibilidade de existirem apreciações
excessivas em determinadas áreas geográficas, nomeadamente nos grandes
centros urbanos". Ainda
segundo o Relatório de Estabilidade Financeira, hoje conhecido, apesar
de as novas operações de créditos à habitação estarem a aumentar desde
2013 e a acelerar desde 2015, o ‘stock' de crédito à habitação continua a
diminuir, devido às amortizações e vencimento de empréstimos que
superam as novas operações.No
final de setembro, os bancos tinham emprestados às famílias 93.568
milhões de euros para compra de habitação, o valor mais baixo desde
2007, segundo dados do BPStat.Apesar
de se estar a assistir a uma grande dinâmica no crédito ao consumo por
parte dos bancos, este ainda é diminuto no balanço destas instituições,
sendo que a maior parte do crédito concedido em Portugal aos
particulares é para compra de habitação.Em
setembro, do total de 115.106 milhões de euros que os bancos tinham
concedido de crédito a particulares (‘stock'), 81% (93.568 milhões de
euros) eram para habitação, enquanto o crédito ao consumo representava
quase 12% (13.354 milhões de euros) e 7% o crédito a ‘outros fins'
(8.185 milhões de euros).
O Relatório de Estabilidade Financeira refere ainda, sobre a exposição
do setor bancário ao imobiliário, que no final de 2016 os bancos tinham
em balanço 7,4 mil milhões de euros de imóveis entregues em dação em
pagamento (para pagamento de dívida).A
maior parte dos imóveis foi recebida entre 2012 e 2015, anos de pico da
crise económica e financeira, e 28% estão localizados no distrito de
Lisboa.