Banco Alimentar de São Miguel precisa por mês de 20 toneladas de alimentos

Hoje 09:15 — Filipe Torres

A primeira campanha de recolha de alimentos de 2026 do Banco Alimentar Contra a Fome de São Miguel, que decorreu  entre 29 e 31 de março, permitiu angariar cerca de 26 toneladas de bens alimentares, menos três toneladas do que na campanha homóloga do ano passado. Em declarações ao Açoriano Oriental, a presidente da direção da instituição em São Miguel, Luísa César, faz um balanço globalmente positivo,  apesar da quebra próxima dos 10%, e destaca a crescente mobilização da população micaelense.Segundo a responsável, os sacos entregues continham, em média, menos produtos do que em anos anteriores, mas o número de sacos recolhidos foi superior, o que permite concluir que houve mais pessoas a participar na campanha. “Este facto poderá refletir as dificuldades que muitas famílias sentem atualmente na gestão do seu orçamento e uma maior prudência nas despesas.”, afirma, sublinhando, ainda assim, “a forte preocupação da população micaelense para com as famílias que vivem com necessidades”.Outro dos aspetos em destaque é o envolvimento dos voluntários. Em cada campanha, o Banco Alimentar mobiliza cerca de mil pessoas, sendo a instituição social privada que reúne mais voluntários em São Miguel.Atualmente, o Banco Alimentar de São Miguel distribui mensalmente cerca de 700 cabazes, cada um composto por 14 produtos alimentares básicos e complementado por outros géneros disponíveis em armazém. Em média, cada cabaz representa cerca de 35 quilos de alimentos para um agregado de quatro pessoas, o que obriga a instituição a assegurar aproximadamente 20 toneladas de alimentos todos os meses.O leite continua a ser um dos produtos mais necessários. “Vivemos uma permanente falta de leite”, afirma Luísa César, adiantando que a instituição necessita de cerca de oito mil litros por mês. Arroz, massas, azeite, conservas, cereais e enlatados são outros dos alimentos mais procurados. Pedidos de agregados com rendimentos aumentouNos últimos anos, o perfil das famílias apoiadas também se tem alterado. Se anteriormente o desemprego era uma das principais causas de vulnerabilidade, hoje são cada vez mais os agregados com rendimentos que, ainda assim, não conseguem fazer face às despesas essenciais.“O aumento dos custos associados à habitação, alimentação, energia e transportes tem reduzido a capacidade financeira de muitos agregado”, explica Luísa César. Por isso, acrescenta, o apoio alimentar deixou de responder apenas a situações pontuais de emergência para se transformar, em muitos casos, num apoio regular para famílias em situação de fragilidade económica.Perante o aumento da procura, a capacidade de resposta da instituição assenta numa articulação entre diferentes entidades. Cerca de 65% das sinalizações das famílias apoiadas são efetuadas pelos serviços de Ação Social do Governo Regional, enquanto a distribuição dos cabazes é assegurada por uma rede de cerca de 50 associações da ilha.Embora exista um Protocolo de Emergência Social com o Governo Regional dos Açores, Luísa César reconhece que a resposta aos desafios atuais só é possível graças ao apoio da comunidade, dos voluntários e das instituições parceiras. Além das campanhas de recolha, a instituição recebe alimentos duas vezes por ano através da Federação dos Bancos Alimentares e realiza aquisições diretas no mercado local.Nos últimos doze meses, os maiores dadores foram o Grupo Bensaude/Insco e a Associação Agrícola de São Miguel, embora a responsável sublinhe a importância dos contributos de muitas outras empresas e de particulares.O número de cabazes distribuídos aumentou 12% face a 2025, um indicador que demonstra o crescimento das necessidades na ilha. Por isso, Luísa César deixa um apelo à continuidade da solidariedade ao longo de todo o ano.“As campanhas de recolha são importantes, mas o apoio alimentar tem de ser garantido ao longo de todo o ano”, afirma Luísa César. A responsável destaca que, ao longo dos últimos 30 anos, o Banco Alimentar de São Miguel tem assegurado uma resposta articulada com os serviços de Ação Social e várias instituições da ilha, garantindo que a ajuda chega a quem mais precisa.“Cada alimento doado, cada hora de voluntariado e cada contributo financeiro ajudam-nos a manter esta resposta e a reforçar uma rede de solidariedade essencial para a comunidade”, conclui.