Baixas qualificações e estereótipos de género justificam elevada taxa de NEET nos Açores
24 de mai. de 2023, 17:24
— Lusa
“As
baixas qualificações afetam decisivamente esta situação. Depois há
problemáticas específicas da região. Pode não parecer, mas a
participação feminina no mercado de trabalho ainda é um problema em
muitas comunidades açorianas, muito marcadas por estereótipos de
género”, avançou, em declarações aos jornalistas, o investigador na área
da psicologia do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE).Francisco
Simões falava, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, à margem da
conferência internacional “Guia para a inclusão social de jovens NEET”,
organizada pela Rural NEET Youth Network, em que participam 50
investigadores de vários países da Europa.Segundo
o Governo Regional dos Açores, no primeiro trimestre de 2023, a taxa de
jovens que não estudam, não trabalham, nem frequentam formação
profissional (NEET) na região era de 15,1%.Um dos principais fatores que contribuem para este cenário é a taxa de abandono escolar da região, que é a mais elevada do país.“O
fator educativo tem um peso muito grande aqui. As nossas taxas de
abandono escolar precoce infelizmente congelaram desde 2015. Oscilam
entre os 26-27%, com uma exceção em 2022, em que houve uma quebra, mas
voltámos ao mesmo nível”, explicou Francisco Simões.Por
outro lado, a região tem “uma estrutura formativa que não responde às
necessidades destes jovens, sobretudo a partir dos 18 anos”.“Alguns
deles precisariam de respostas muito ágeis de respostas de programas de
reconversão curtos que permitissem acesso mais rápido ao mercado de
trabalho”, defendeu o investigador.Para
Francisco Simões, o problema exige “uma maior coordenação de políticas
entre setores da administração pública”, como educação, emprego e saúde,
e um maior envolvimento das comunidades informais.“Há
um esforço regional nesse sentido, porque neste momento a Agenda
Regional para a Qualificação Profissional prevê a criação de um plano
para a inclusão dos jovens na educação ou formação e há um grupo de
trabalho que está a desenvolver essa proposta de integração de políticas
e de intervenções no terreno”, revelou.O
perfil dos jovens NEET é “muito variado”, mas é preciso “prestar
atenção” aos “desencorajados”, que já desistiram de procurar formação e
emprego.“Tem sido um perfil que tem vindo a
crescer na Europa, sobretudo depois da pandemia. Isso levanta algumas
preocupações. Significa que temos jovens que estão por tempo mais
prolongado fora dos sistemas formais e quanto mais tempo estão fora
desses sistemas formais, mais difícil é depois reintegrá-los”, alertou o
investigador.Maria Fernandes Jesus,
investigadora na área de psicologia social e comunitária na Universidade
de York St John, em Londres, e no ISCTE, coordenou um grupo de trabalho
sobre inclusão social de jovens NEET em que participaram mais de 20
investigadores da rede Cost Action.O grupo
identificou 43 projetos comunitários que promovem a inclusão social de
jovens NEET e a investigadora acredita que muitos poderiam ser
replicados nos Açores, até porque a região tem em comum com estas zonas
da Europa “dinâmicas mais rurais” e a dificuldade em mobilizar jovens”.Segundo
Maria Fernandes Jesus, são sobretudo os projetos “que envolvem
ativamente os jovens” desde a sua criação, aqueles que são “mais
eficazes e sustentáveis ao longo do tempo”.“Ser
NEET não é só falta de trabalho ou falta de acesso a educação, tem
implicações em termos de qualidade de vida. Tem um impacto muito grande a
níveis de envolvimento na comunidade, de exclusão social, de
discriminação. Há uma tendência para acentuar todos estes aspetos
negativos. É preciso olhar para os jovens NEET também deste ângulo de
inclusão social e para a sua participação e envolvimento nos projetos
que são orientados para eles”, salientou.