Azores Wine Company, dez anos a revolucionar o setor dos vinhos nos Açores
#Empresa
26 de nov. de 2024, 15:30
— Made in Açores
Um projeto que começou, oficialmente,
em 2014, no Pico, pelos continentais Filipe Rocha e António Maçanita
e pelo picaroto Paulo Machado. “O António Maçanita tem uma costela
açoriana (pai de São Miguel) e sempre teve interesse em contribuir
para a Região. Começámos a trabalhar juntos em 2007, quando o
convidei para dar aulas na Escola de Hotelaria, em Ponta Delgada, e
em 2010, fez o seu primeiro vinho nos Açores. O salto para o Pico é
um passo natural, pois é a ilha com maior produção nos Açores.
Juntámo-nos, em 2013, ao Paulo Machado, que já tinha o projeto
Insula, e acredito que essa vindima foi o início de uma grande
revolução nos Açores – poucos meses depois fundámos a Azores
Wine Company. Em 2021, o Paulo regressa ao seu projeto original”,
recorda Filipe Rocha.
A Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha
do Pico havia conseguido a sua classificação como Património da
Humanidade, pela UNESCO, em 2004, e havia muito a fazer. Com a
vontade de mudar o “paradigma dos vinhos dos Açores” nasceu a
AWC. É certo que o objetivo já foi conseguido, e com visível
impacto a diversos níveis: da mudança da paisagem vinhateira, com a
recuperação de grandes manchas de vinha, ao resgate de castas em
vias do desaparecimento, sem esquecer a colocação do vinho do Pico
nas bocas do mundo.
“Para quem não conheceu o Pico de há
15 ou 20 anos, é difícil imaginar que estávamos numa
extraordinária região de vinhos à beira do desaparecimento. Para
quem conheceu, era difícil sonhar que o Pico seria, hoje, uma das
regiões de vinhos mais respeitadas em Portugal e com enorme procura
da alta restauração no nosso país e no estrangeiro. Ser uma
Paisagem Património não teria significado se as vinhas não fossem
trabalhadas e recuperadas e se os vinhos não subissem o patamar de
qualidade e reconhecimento. Foi esse o grande contributo da AWC!
Fizemos com que a ilha e as pessoas voltassem a acreditar, voltassem
à vinha e à produção de vinho. Há hoje novas gerações na
vinha, a produzir e engarrafar vinhos e também novos projetos de
turismo à volta deste produto único, que é o vinho”.
A valorização da uva é outra marca
da AWC, com elevado impacto no setor. “A uva pagava-se a cerca de
0,80€/kg quando chegámos à ilha. Hoje, é a uva mais cara de
Portugal, com preços entre 4 e 6€/kg - dez vezes mais do que a
média que se paga no continente. É um dos locais mais extremos do
planeta para se fazer vinho e com uva de enorme qualidade. Por isso,
o trabalho tem que ser bem pago, mas só se consegue pagar este preço
se os vinhos forem de qualidade extraordinária e, sobretudo, se
forem vendidos nos locais certos, que podem pagar preços elevados e
justos pelo produto”, enfatiza.
O reconhecimento dos vinhos fora do
arquipélago requer também muito trabalho e esforço financeiro mas
faltam apoios públicos. “Hoje mais produtores juntam-se a
este enorme trabalho de dar a conhecer os nossos vinhos ao mundo.
Somos uma gota no oceano e, durante os primeiros anos, apenas a AWC
fez, verdadeiramente, prospeção e vendas a nível internacional.
Este é um trabalho contínuo, que exige recursos e que deveria ter
mais atenção por parte das autoridades regionais. Infelizmente, os
apoios à internacionalização acabaram há cerca de um ano e o
Governo não está a dar a devida atenção a este tema”, lamenta o
empresário.
Promoção além-fronteiras e produção
biológica
Numa década de existência e fruto de
muita persistência, conseguiram colocar os seus vinhos em quase 30
países e em mais de meia centena de distribuidores. A sua carta de
vinhos conta com 21 brancos, espumantes, tintos, rosés e licorosos,
produzidos, sobretudo, a partir das castas tradicionais arinto dos
Açores, verdelho e terrantez do Pico.
“Também recuperamos castas que fazem
parte do nosso encepamento antigo, como boal e saborinho. Usamos
também, em poucos vinhos, castas nacionais e internacionais que
foram plantadas na ilha nas últimas duas décadas”, explica.
Sob a sua alçada estão 120 hectares
de vinhas, parte das quais arrendados, mas, nos últimos anos, as
condições climatéricas têm ditado a produção de apenas 50 mil
garrafas anuais, “o que é manifestamente pouco, sobretudo para
nós, que fizemos grandes investimentos”.
As áreas do turismo e da restauração
fazem também parte da empresa, embora tenham surgido mais tarde. Em
2021 abriram ao público a nova adega, no Cais do Mourato, entre
currais de vinha, que apresenta um espaço para provas de vinhos e
ainda um restaurante e faz parte de um complexo de alojamentos
turísticos.
“Para além do necessário espaço de
vinificação, quisemos criar um produto turístico ao nível de
qualidade dos vinhos. Com este edifício procuramos dar uma abordagem
contemporânea à palavra 'adega', que tem um sentido único na ilha
do Pico. Para além das provas de vinhos, temos um restaurante, que
oferece duas diferentes experiências gastronómicas, ao nível do
melhor que se faz nos Açores e no país, incluindo menus de
degustação nos quais a experiência vínica desempenha,
naturalmente, um papel de muito relevo. Para além disso, a adega tem
seis apartamentos turísticos, bem equipados, com vistas para o mar,
e bem inseridos na paisagem da vinha”.
Estando sempre o vinho na base de tudo,
a AWC continua a traçar novas e arrojadas metas, mais recentemente
com a produção biológica. “Tal como foi feito com os vinhos, há
que criar um novo paradigma na vinha: encontrar a forma de fazer esta
viticultura, com menos recursos humanos, e evoluir naturalmente para
uma produção biológica. Têm sido muitos anos de ensaios e
experiências. Pela primeira vez, este ano, temos uma área
certificada de vinha em produção biológica. É a primeira nos
Açores! A produção foi baixa e ainda não permite fazer um vinho
100% biológico, mas estamos a dar os passos na direção certa”,
revela, confiante.
A terminar, revela as metas atuais:
“Produzir mais e melhor, em simultâneo recuperar castas antigas,
entender melhor o território, encontrar forma de reduzir o trabalho
humano nas vinhas e melhorar a mecanização dentro das
condicionantes possíveis. Em suma, consolidar o que temos, e depois
sim, poder partir para novos desafios”.