Aves migradoras podem não conseguir ajudar as plantas a fugir das alterações climáticas
23 de jun. de 2021, 16:06
— Lusa/AO online
As
aves migradoras podem ajudar as plantas a adaptarem-se às alterações
climáticas (comendo os seus frutos e dispersando as suas sementes para
locais mais favoráveis), mas, de acordo com a Universidade de Coimbra
(UC), “este novo estudo mostra que a grande maioria das espécies de
sementes de florestas europeias é dispersada por aves durante a sua
migração em direção a latitudes mais quentes, no sul”.Apenas
uma minoria daquelas sementes são encaminhadas para latitudes mais
frias, a norte – “ao contrário do que as plantas precisariam para se
adaptarem ao aquecimento global”, segundo a mesma investigação,
desenvolvida por 13 instituições europeias, entre as quais a UC e a
Universidade do Porto (UP).“Sabemos
que o clima está e vai continuar a aquecer e, em resultado disso,
muitas espécies na Europa estão a deslocar-se de áreas que se estão a
tornar demasiado áridas e quentes – a sul – e a expandir-se para novas
áreas onde as condições se estão a tornar mais favoráveis – a norte”,
afirma, Ruben Heleno, investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE)
da UC, coautor do estudo.“Para
os animais, incluindo para nós, este movimento é mais fácil, mas muitas
plantas precisam da ajuda dos animais, que ao consumirem os seus frutos
acabam depois por depositar as sementes em novos locais onde as plantas
podem crescer. As aves migradoras, muitas delas deslocando-se centenas
de quilómetros em poucas horas, têm um papel muito importante na
prestação deste serviço de boleias gratuitas à escala global”, explica,
citado pela UC, Ruben Heleno.A
investigação baseou-se no estudo das interações entre plantas e aves
frugívoras em 13 florestas de seis países europeus, incluindo uma
floresta em Souselas, Coimbra. No total, adianta a UC, o estudo envolveu
949 interações entre 46 espécies de aves e 81 espécies de plantas com
fruto.O
estudo mostra que apenas 35% das espécies de plantas são dispersadas por
aves quando estas estão a migrar em direção ao norte, enquanto 86%, a
maioria das espécies, são dispersadas quando as aves que consomem os
seus frutos estão a voar em direção a latitudes mais quentes a sul,
revela a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.“As
aves migradoras são o veículo perfeito para levar plantas que produzam
bagas para novos sítios e podem ajudá-las a mudar a sua distribuição
face às atuais alterações climáticas. Contudo, demonstrámos que somente
um terço das plantas pode contar com as aves migradoras para se expandir
para norte, de forma a conseguirem manter os seus nichos ecológicos
atuais”, salienta Luís da Silva, investigador do Centro de Investigação
em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) da UP, coautor do
estudo.A
investigação também mostra que as aves que passam o inverno no sul da
Europa e no norte de África são especialmente importantes para ajudar as
plantas a deslocarem-se para latitudes tendencialmente mais favoráveis a
norte.Este
importante serviço é providenciado por poucas espécies, entre as quais o
Pisco-de-peito-ruivo, a Toutinegra-de-barrete-preto e várias espécies
de tordos, todas elas ainda relativamente comuns na Europa. No entanto,
algumas delas são caçadas de forma legal e ilegal em vários países da
bacia do Mediterrâneo, apesar do seu importante papel ecológico.Os
autores do estudo sugerem que esta dificuldade em encontrar dispersores
adequados pode condicionar a composição específica das florestas
europeias no futuro, uma vez que muitas plantas podem ficar para trás.
As espécies de plantas que não conseguirem acompanhar a deslocação das
suas condições preferenciais de sobrevivência terão que enfrentar climas
mais áridos, secos e quentes no sul.