Autonomia foi o “meio-termo” para “apaziguar” o independentismo nos Açores
Hoje 15:23
— Lusa/AO Online
O
dirigente da FLA, professor de carreira, refere, em entrevista à
agência Lusa a propósito dos 50 anos da autonomia dos Açores, que
“ninguém dá poder” e que, “na altura, os independentistas exigiam
independência e uma rotura total com Lisboa”.Contudo,
acrescenta o historiador, “alguns setores mais moderados dos
independentistas” e “alguns setores de Lisboa tomaram um meio-termo, de
forma a apaziguar a reivindicação independentista”.“Esse
meio-termo foi a autonomia, que foi negociada, e com Lisboa a perceber
que tinham mesmo que negociar porque, de facto, a dimensão
independentista estava a ganhar uma força e uma expressão no arquipélago
que estava a fugir completamente ao seu controle”, explica.Para
Rui Medeiros, os americanos “nunca estiveram com os independentistas,
mas com Lisboa”: o embaixador dos Estados Unidos da América (EUA) na
altura, na capital, Frank Carlucci, “convenceu Henry Kissinger
[secretário de Estado] de que, de facto, havia viabilidade para que
Portugal continuasse na esfera ocidental” e não caísse nas mãos dos
comunistas.Baseando-se em documentos
secretos norte-americanos que foram desclassificados, Rui Medeiros
acredita que Kissinger “era da opinião de que se devia deixar cair
Portugal para o lado comunista, porque o investimento que era necessário
efetuar no país, para que adquirisse algum desenvolvimento, era de tal
ordem que se tornava quase impossível”.O
independentista ressalva que “para dar o exemplo aos outros países
europeus, deixava-se cair [Portugal] na esfera da União Soviética, de um
país comunista”, salvaguardando-se os interesses geopolíticos de
Washington “através da independência dos Açores”.Contudo,
Frank Carlucci foi a Washington e “convenceu Kissinger, com base no seu
grande amigo Mário Soares, de que, de facto, havia viabilidade para
Portugal”, pelo que, “a partir deste momento, os EUA ficaram com Lisboa e
não com a FLA”. A independência dos
Açores, “mais tarde, esteve para se concretizar, nomeadamente em 1978”,
tendo o social-democrata Mota Amaral, primeiro presidente do Governo
Regional, “ido à Terceira denunciar os independentistas - e teve que se
abortar tudo”.Rui Medeiros considera que
“Lisboa deu a autonomia porque não tinha alternativa”: “a alternativa
era muito pior” e, a partir do novo regime político-administrativo, “as
hostes independentistas começam a abrandar a sua ação”.“Primeiro,
porque grande parte dos independentistas se inseriram no movimento
autonomista. Segundo, porque por parte dos próprios independentistas - e
lembro-me de falar com o doutor José de Almeida [fundador da FLA) sobre
isso - houve necessidade de arrefecer um pouco certos ânimos que não
abonavam nada a favor da causa. E as duas circunstâncias conjugadas
levaram a que o setor independentista de alguma forma deixasse de ter
uma ação muito profunda no sistema”, afirma.Para
o independentista e historiador, hoje, “a autonomia está transformada” e
“se lhe chamassem a Câmara Municipal dos Açores, não lhe ficaria mal”.Rui
Medeiros afirma que a luta independentista, à semelhança de outros
movimentos europeus, se faz hoje “dentro do atual formato político”, mas
era “necessário que houvesse partidos regionais”.“Nós
somos o único país da Europa que não tem partidos regionais
independentistas. Partidos regionais há por todo o lado”, salienta.A
FLA foi fundada na clandestinidade, em Londres, por José de Almeida,
tendo o movimento político, criado em 1975, defendido a autodeterminação
dos Açores.Em 1991, José de Almeida foi
julgado em Lisboa, devido às suas ações políticas, mas o julgamento não
resultou em pena de prisão efetiva para o fundador, que continuou o seu
ativismo civil até ao fim da vida.No
sábado passam 50 anos sobre as primeiras eleições legislativas regionais
dos Açores, realizadas, tal como na Madeira, a 27 de junho de 1976.