Autarca de Angra do Heroísmo desvaloriza "ilegalidades" apontadas em auditoria
13 de abr. de 2023, 17:17
— Lusa
“Não
há nada que ponha em causa a honorabilidade de quem quer que seja, nem
nada que nos envergonhe. São questões de natureza de interpretação, mas
ninguém roubou, ninguém usou mal o dinheiro público e acho que isso é
que interessa”, afirmou, em declarações à Lusa, o autarca de Angra do
Heroísmo (PS), Álamo Meneses, que cumpre um terceiro mandato.Numa
auditoria à gestão do município, entre 2016 e 2020, a Inspeção
Administrativa da Transparência e Combate à Corrupção dos Açores detetou
possíveis “ilegalidades e irregularidades”, que enviou ao Ministério
Público e ao Tribunal de Contas.Entre as
principais conclusões do relatório, a que a Lusa teve acesso, a inspeção
refere a “duplicação de despesa no contrato de fornecimento do cartaz
musical e no contrato de aluguer de som para as Festas Sanjoaninas” e o
recurso a ajustes diretos na “aquisição de serviços de produção musical e
disponibilização dos meios humanos e materiais do cartaz musical das
Sanjoaninas”.Por outro lado, “não foi
possível quantificar com certeza o valor dos benefícios atribuídos ao
adjudicatário do contrato, além do preço, nomeadamente patrocínios dos
recintos, bilheteira, isenção de licenciamento, além do preço base, pelo
que se verifica fortes indícios de que os mesmos não tenham sido
contabilizados para efeitos de cálculo do valor estimado do contrato,
como prevê a legislação em matéria de contratos públicos”.Segundo
a inspeção, isso “coloca em causa princípios de legalidade, de
imparcialidade e de prossecução do interesse público, devendo ser
fundamento de nulidade do contrato”.O
relatório refere ainda a realização de uma empreitada na Prainha “sem
que tenha sido aguardado o parecer” da Direção Regional da Cultura e
“sem que tenha existido estudo ou projeto elaborado por arquiteto
legalmente habilitado”, o que indica uma “eventual violação do dever de
zelo e eventual violação das regras urbanísticas suscetível de eventual
responsabilização criminal do titular de cargo político”.Na
mesma obra, aponta a falta de um “estudo de impacto arqueológico” e a
utilização de materiais que podem ter violado o Plano de Pormenor e
Salvaguarda de Angra do Heroísmo, cidade Património Mundial da
Humanidade da Unesco.O relatório indica
também a uma “eventual violação das regras urbanísticas” em obras
particulares, licenciadas pela autarquia, e a “falta de comunicação de
várias licenças concedidas na área de intervenção do Plano de Pormenor e
Salvaguarda de Angra do Heroísmo à Direção Regional da Cultura”, o que
“pode implicar a nulidade de tal ato”.Questionado
pela Lusa, Álamo Meneses defendeu que a atribuição da receita
da bilheteira das Sanjoaninas ao contratante é a solução que “melhor
serve o interesse público”.“O contratante
tentará a trazer os melhores artistas possíveis, porque o seu lucro
depende da adesão do público. Ser a câmara a assumir essa parte, ficar
com o dinheiro e depois pagar, retira a pressão de cima do contratante. A
partir daí, se alguma coisa corresse mal com o espetáculo, desde o mau
tempo até à falta de público, o prejuízo seria da câmara”, justificou.Quanto
à obra na Prainha, o autarca disse que era “uma obra de pequeníssima
dimensão” e que era urgente, por isso não aguardou por parecer.“É
uma obra de meia dúzia de metros. No início da época balnear
descobriu-se, porque o mar levou a areia, que era preciso fazer o
reforço da sapata que está por detrás da muralha. Não era preciso nenhum
estudo, precisava de se resolver o assunto tão depressa quanto
possível, para que a época balnear começasse com toda a normalidade”,
apontou.Álamo Meneses admitiu que a
relação com a direção regional da Cultura “nem sempre tem sido a mais
fácil”, mas garantiu que são feitas “comunicações periódicas” das
licenças.“É público e notório que têm
havido ao longo dos tempos vários desentendimentos sobre questões de
natureza patrimonial e sobre a aplicação da legislação sobre questões
patrimoniais”, afirmou.Em comunicado de
imprensa, o PSD de Angra do Heroísmo criticou a postura “pouco
transparente” do autarca, defendendo que as “várias ilegalidades e
irregularidades” reportadas pela inspeção “deviam ser cabalmente
esclarecidas”.“A postura de Álamo Meneses
sobre este assunto é lamentável, ao não ser transparente nem claro sobre
as situações em causa, e não promovendo um esclarecimento cabal,
dizendo apenas a meia verdade que lhe convém”, afirmou a vice-presidente
do PSD de Angra do Heroísmo Luísa Barcelos.A
dirigente social-democrata disse que os resultados da auditoria “põem
em causa os princípios da legalidade, da imparcialidade e da prossecução
do interesse público” e considerou “alarmante” que o município possa
“desvirtuar” o património, numa "postura de arrogância e de falta de
diálogo com entidades públicas”.