Autarca das Velas rejeita risco de descaracterização das fajãs de São Jorge
5 de fev. de 2019, 10:07
— Lusa/AO Online
“Não
me parece que estejam [em risco], antes pelo contrário. Aquilo que hoje
acontece nas fajãs, de grosso modo, é algumas recuperações de
património existente e que me parecem que estão a ser muito bem
conseguidas e que não abonavam nada da forma como estava abandonadas há
muitos anos”, adiantou.Luís
Silveira falava, em declarações aos jornalistas, à margem de um
'workshop' sobre produtos turísticos em espaços costeiros protegidos na
região da Macaronésia, que decorreu nas Velas e que teve como principal
foco as fajãs de São Jorge.A
iniciativa organizada pela Associação Regional de Turismo (ART)
realizou-se no âmbito do projeto Ecotour, que envolve 11 parceiros de
cinco regiões (Açores, Canárias, Cabo Verde, Mauritânia e Senegal),
tendo marcado presença nas Velas vários representantes das Canárias.A
ilha de São Jorge tem mais de sete dezenas de fajãs - pequenas
planícies junto ao mar que tiveram origem em desabamentos de terras ou
lava – que são, desde 2016, Reserva da Biosfera da UNESCO – Organização
das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura e dos locais mais
procurados pelos turistas.O
autarca das Velas admitiu alguma preocupação com a necessidade de
preservação da qualidade de vida da população de São Jorge, com o
aumento do turismo, mas disse que a ilha ainda tem margem para crescer.“Se,
por um lado, tenho a certeza de que nós temos todas as condições para
vender a região, a ilha e o concelho de Velas pela qualidade ambiental
que temos, fica a dúvida e a incerteza se nós teremos, efetivamente,
essa capacidade de manter a qualidade de vida de quem aqui vive e a
qualidade ambiental”, apontou.Luís
Silveira disse mesmo que a autarquia já foi abordada por vários
privados que manifestaram intenções de fazer investimentos na ilha, mas
sublinhou que as regras de gestão do território estão bem definidas no
Plano de Ordenamento da Orla Costeira e no Plano Diretor Municipal, que
estão inclusivamente em fase final de revisão. “Irão
permitir o desenvolvimento harmonioso da ilha, mas balizando algumas
tentações que possam haver de investidores”, apontou, acrescentando que a
legislação atual já proíbe construções que venham a “descaracterizar a
essência de uma fajã”.Questionado
sobre um investimento em alojamento, na fajã do Ouvidor, com assinatura
do arquiteto Souto Moura, o autarca das Velas disse que foram
adquiridos terrenos e que o projeto deverá ser submetido a licenciamento
no primeiro semestre deste ano, mas sublinhou que se trata de um
projeto de turismo em espaço rural e não de um alojamento tradicional. “Por
aquilo que tenho conhecimento, o próprio grupo de investimento tem
muito essa sensibilidade ambiental, porque diz que só consegue vender o
seu investimento se tiver esta qualidade ambiental. Senão, deixa de ter o
objetivo de vender um destino de natureza”, frisou, acrescentando que o
projeto deverá “criar inúmeros postos de trabalho e trazer muita
rentabilidade económica aos outros setores”.Também
o presidente da ART, José Toste, considerou que as fajãs de São Jorge
ainda têm potencial de crescimento, sem perderem a sua sustentabilidade.
“Melhor do
que ninguém para trabalhar isso são, realmente, a população local e as
empresas de animação turística locais, que, na minha opinião, têm feito
um trabalho importante no sentido de levar quem visita São Jorge a essas
fajãs, sem se estar a causar impactos ambientais. No entanto, cremos
que há aqui margem de manobra para se poder tirar um maior potencial
turístico destas fajãs”, adiantou.Para
José Toste, as fajãs de São Jorge são “únicas” e, por isso, é preciso
ter “muito cuidado em trabalhar esses recursos de uma perspetiva
turística”, mas há “cada vez mais a preocupação ambiental”.“As
estratégicas que estão a ser decididas agora serão aquelas que levarão
ao futuro das fajãs, portanto têm de ser muito bem pensadas, para que no
futuro não tenhamos de arranjar estratégias para corrigir estratégias
erradas”, alertou.