Aumento de capital social de 5 ME cria mal-estar no clube
Hoje 09:23
— Nuno Martins Neves
AIkarus Business, empresa detida pelo brasileiro Bruno Vicitin, detentor de 55,8% do capital social do Santa Clara Açores Futebol SAD, colocou em marcha um aumento de capital na ordem dos 5 milhões de euros, que levará o capital social da sociedade anónima desportiva açoriana dos atuais 1 milhão de euros para 6 milhões de euros. Uma operação que vai “esmagar” o clube, que passará para uma percentagem próxima dos 5%.Um aumento obrigatório, entende a SAD, para responder à notificação da UEFA, devido ao fair-play financeiro. Com o Santa Clara em falência técnica - últimos três resultados foram negativos e só os aportes financeiros do investidor mantêm a SAD à tona - esta foi a forma encontrada pelo acionista maioritário para fazer face à situação, evitando que a SAD venha a ser penalizada pela UEFA, penalizações que podiam ir desde o pagamento de multas até à proibição de inscrição de jogadores.Lançando mão de uma deliberação tomada no tempo de Rui Cordeiro, o assunto foi discutido na última reunião do Conselho de Administração, realizado no dia 2 de março e já noticiado por este jornal. Mas não foi um assunto pacífico, muito pelo contrário: os restantes acionistas votaram contra, entre eles os detentores de uma pequena percentagem (4,2%), bem como o clube, que detém 40% de ações de categoria A.Na declaração de voto a que o jornal teve acesso, fica plasmado o mal-estar da direção liderada pelo advogado Ricardo Pacheco (que também é vogal do conselho de administração da SAD), que entende não ser esta a melhor forma de resolver o problema.Primeiro porque faz uso de uma alteração dos estatutos, efetuada em 2021, pelo então presidente do clube e SAD, Rui Cordeiro, alteração que a atual direção considera de “discutível e de legalidade duvidosa” e que não teve em conta os “superiores interesses da maior instituição desportiva açoriana”. Acrescenta ainda a direção que qualquer aumento de capital devia estar subordinado à autorização do clube fundador, através de decisão tomada em assembleia-geral.E segundo, a forma escolhida pelo acionista prioritário para proceder ao aumento de capital: ao ser em modalidade de conversão de créditos e não entrada em numerário, “ficou inviabilizada um eventual direito de preferência por parte dos sócios”.Razões que levaram o clube a votar contra a proposta de aumento de capital, por entender que dispõem de suficiente informação que justifiquem a operação, nomeadamente as imposições decorrentes da UEFA.A tomada de posição do acionista maioritário gerou um ambiente de mal-estar no seio do clube, cuja direção tem procurado manter uma relação sadia entre as duas instituições.Também os pequenos acionistas não entendem a decisão de se avançar com o aumento de capital “agora e nestes moldes”. Ao Açoriano Oriental, Manuel Branco considera que esta operação é possibilitada por uma alteração de estatutos que levanta muitas dúvidas e questiona a ética da atuação do acionista maioritário.“Ressuscitar uma ‘golpada’ do Rui Cordeiro não é ético. Enão encontro em lado nenhum a notificação da UEFA. E se o motivo é corrigir a situação financeira, os cinco milhões de euros propostos não vão resolver nada”, assinala o pequeno acionista, que estima que para corrigir o problema “seria preciso um aumento de capital social na ordem dos 20 a 30 milhões de euros”.Manuel Branco entende que, havendo mesmo a exigência da UEFA, haveria outras formas de resolver o problema, “como transformar os empréstimos que têm em prestações acessórias. Deixava de ser passivo e passava a ser considerado capital próprio. A forma como estão a fazer, a penalização vai ser sobre os pequenos acionistas, mas principalmente sobre o clube. Traíram o Ricardo Pacheco”.Recorde-se que em julho de 2021, o conselho de administração da SAD, na altura liderado por Rui Cordeiro, promoveu uma tentativa de aumento do capital social em três milhões de euros (para um valor global de quatro milhões), mas uma providência cautelar travou o processo.Este assunto vai ser levado aos sócios do Clube Desportivo Santa Clara hoje, na assembleia-geral marcada para as 19 horas. Segundo apurou o Açoriano Oriental, Bruno Vicintin quer manter a boa ligação entre clube e SAD e prepara-se para apresentar aos sócios uma proposta, que poderá passar pela assunção da dívida que o clube tem para com a SAD, um valor superior a seis milhões de euros.