Aumentar moldura penal não resolve problema da violência doméstica
28 de mai. de 2025, 17:25
— Lusa/AO Online
À
margem da cerimónia de assinatura de contrato de 70 novos conservadores e
cinco novos oficiais de registos, que hoje decorreu no Instituto dos
Registos e Notariado (IRN), em Lisboa, Rita Alarcão Júdice comentou o
relatório do Conselho da Europa que aponta à justiça portuguesa decisões
brandas para crimes de violência doméstica, reconhecendo que “há
melhorias a serem feitas”, desde logo nos casos que “nunca chegam aos
tribunais”.A ministra da Justiça admitiu
disponibilidade do Governo para “ser promotor” de alterações
legislativas, “se forem necessárias”, mas disse que é competência do
parlamento aprovar essas alterações, mas apesar de a Associação Sindical
dos Juízes Portugueses (ASJP) ter associado “decisões brandas” dos
tribunais em crimes de violência doméstica a uma moldura penal com um
limite baixo, Rita Alarcão Júdice rejeitou por aí o foco da discussão.“Pode
ser feito esse caminho, mas eu não queria que essa discussão desfocasse
do ponto essencial, porque se nós nunca conseguimos resolver o problema
na origem, aumentar a moldura penal pouco nos vai servir, porque se os
casos não chegam a julgamento, se a suspensão de inquérito acontece
regularmente, a moldura penal vai ser irrelevante”, disse.Questionada
se a origem do problema se prende com a investigação dos crimes, com o
trabalho dos procuradores e com uma eventual insuficiência destes
magistrados dedicados a este crime, a ministra rejeitou particularizar.“Eu
não quero apontar o dedo a ninguém, nem quero dizer que os problemas
existem e estão corporizados numa única pessoa ou numa única entidade. O
que eu entendo é que, também o Governo, todos nós temos que fazer mais
com os meios que temos”, disse.Sobre o
segundo caso de alegada violência contra um recluso com problemas
psiquiátricos na prisão de Angra do Heroísmo, nos Açores, noticiado pela
CNN, a ministra sublinhou que em ambos os casos houve abertura de
processos de investigação interna, mas frisou que no primeiro caso
tornado público “o que foi relatado pode não corresponder totalmente à
realidade”, recordando os relatos de alguns guardas prisionais a
contrariar a versão inicial e a defender o diretor do estabelecimento
prisional.“Há sempre duas versões e nós
temos que perceber onde é que está a verdade. Sendo certo que se houver
abusos, nós não vamos compactuar com abusos. Se não houver abuso e se
tiver sido uma situação regular e ainda assim puderem ser introduzidas
melhorias no sistema prisional, também faremos aí o que estamos a fazer.
Há um grande desafio à saúde mental no sistema prisional, é um grande
desafio com o qual nós também estamos a lidar e estamos a procurar
muitas soluções para esse problema que é um problema grave”, disse a
ministra.Sobre o reforço do IRN com as
novas entradas hoje contratualizadas, Rita Alarcão Júdice reconheceu que
“ainda não responde à totalidade das necessidades”, estando já
programado um novo concurso que, com a abertura de cerca de 300 novas
vagas e a junção das mais de 100 que sobraram do concurso aberto em 2023
e só agora finalizado, sejam disponibilizados mais de 400 lugares para
novas entradas nos registos e notariado.Paralelamente,
o Governo pretende concluir o processo de revisão das carreiras do IRN,
interrompido pela queda do executivo, para a poder tornar “mais
atrativa” e contribuir para reverter uma média de idades de 58 anos, num
setor “essencial para a economia” e ao qual a ministra reconheceu
“muitos atrasos”.“É crítico que estes
atrasos sejam recuperados”, disse, acrescentando ainda que o próximo
concurso possa ser mais célere que o último.