Auditoria da Justiça recebida de forma distinta por sindicatos
3 de jan. de 2025, 09:35
— Nuno Martins Neves/Rafael Dutra
Depois da auditoria às condições de segurança das 49
prisões, cujo relatório revelou deficiências” nos equipamentos,
organização e gestão de recursos, o Sindicato dos Técnicos da
Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (SinDGRSP) lamentou a
“visão limitada dos auditores”, já o Sindicato Nacional do Corpo de
Guardas Prisionais (SNCGP) aplaude o documento, onde estão vertidas
“todas as queixas que temos vindo a denunciar nos últimos anos”.Em
comunicado de imprensa, numa reação a este relatório divulgado pelo
Ministério da Justiça, o SinDGRSP lamentou que tenha havido uma “visão
limitada dos auditores”, que “ ao fim de tantos meses de trabalho, não
conseguem verificar a necessidade urgente de uma verdadeira fusão dos
serviços de Reeducação e Reinserção, que a segurança é uma tarefa de
todos (…) e que os factos são que não existem fugas quando todos os
serviços estão a funcionar”.Para o sindicato, a falta de
atratividade das carreiras limita todo o trabalho de Reinserção com
custo inimagináveis para os contribuintes.Além disso, o SinDGRSP
recorda que em junho de 2024 entregou uma “proposta de visão futurista”
da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), no
entanto, realça que nunca teve a oportunidade de se pronunciar e que
nenhuma das medidas propostas foram implementadas.“Continuamos a não
perceber para que se deslocam reclusos para os tribunais quando durante
a pandemia eram ouvidos por videoconferência, prisões com direção,
chefias e logística necessária para funcionar, com um número
insignificante de reclusos e posteriormente outras com o mesmo número de
trabalhadores com cinco e seis vezes mais população reclusa”, sustenta a
estrutura sindical.Nesse sentido, o sindicato apela ao Governo da
República para terminar o mais rápido possível “com as escolhas sem
critério conhecido para os cargos de direção”, justificando que “estes
cargos devem ser preenchidos por concurso, como em todos os serviços
públicos, por mérito e não por outros motivos não conhecidos”. Da
parte do SNCGP, o presidente vai ao ponto de dizer que o relatório do
Ministério da Justiça poderia ter a sua assinatura, pois “é um comprovar
de tudo o que temos dito. Todas as falhas que apontam, são as falhas
que temos entregue aos partidos políticos na Assembleia da República,
aos governos, à Provedora da Justiça. Ninguém podia dizer que aquilo não
estava a acontecer”.Para Frederico Morais, depois de feito o
relatório, é importante que “não fique só no papel”e que se comece a
ver trabalhos efetivos na resolução dos problemas que, refere,
“atravessou os governos dos últimos 20 anos”.O sindicalista espera
que se resolva “uma vez por todas” a camarata da cadeia de Ponta
Delgada, apelidada de “América do Sul”, que persiste a funcionar uma
média de 30 a 50 reclusos, “sem respeito pela dignidade dos presos e
colocando em causa a segurança deles e dos guardas-prisionais”.Reconhecendo
que há muitos problemas, transversais a todas os estabelecimentos
prisionais, Frederico Morais aponta quatro pontos que podem ser
resolvidos de imediato, como sendo a separação do regime de reclusos,
não tendo no mesmo espaço reclusos de regime aberto e reclusos de regime
fechado; a instalação de inibidores de sinal nos estabelecimentos
prisionais; o controlo mais apertado das saídas ao exterior; e a
extinção de cursos desnecessários, como ioga, ballet ou costura para
reclusos.Recorde-se que, segundo este relatório, existem
dificuldades na alocação de reclusos nas cadeias e na sua distribuição
pelas alas e pelas celas. Além disso, foram também identificadas
“dificuldades na transferência de reclusos entres estabelecimentos
prisionais” e que existe “pouca articulação” na troca de informação
entre a direção-geral dos serviços prisionais e as cadeias. De
acordo com o relatório, outro problema encontrado é a “avançada” faixa
etária dos guardas prisionais, bem como a “ausência de formação” destes
profissionais “em temas específicos”.Citada em comunicado, a
ministra da Justiça, Rita Júdice, considera que esta auditoria “confirma
o estado de desinvestimento no sistema prisional ao longo dos anos”.