Audiogest ameaça com queixa se passar anteproposta dos Açores sobre direitos de autor
17 de jul. de 2025, 15:37
— Lusa/AO Online
Em declarações à agência Lusa,
Miguel Carretas alertou para os riscos da anteproposta de lei do
Chega/Açores, aprovada na Assembleia Regional a 8 de julho, para que
entidades sem fins lucrativos paguem apenas 10% do valor dos direitos de
autor e conexos de forma a proteger as festividades populares.“Há
uma violação frontal de diretivas e normas de direito europeu,
nomeadamente a questão da diretiva que regula as entidades de gestão
coletiva, mas também na diretiva que atribui o direito de autorizar o
cobrar de uma remuneração equitativa sobre determinado tipo de
utilizações, no caso, de música gravada em espaços públicos”, afirmou.O
responsável pela Audiogest, entidade responsável pela gestão coletiva
dos direitos dos produtores e artistas, lembra o caso de Itália que foi
obrigada a reverter o teto máximo para tarifas da música gravada em
rádio por imposição da União Europeia em 2006.Miguel
Carretas defendeu, também, que a anteproposta “viola frontalmente um
conjunto de princípios do direito constitucional, a começar pelo
princípio da igualdade” e lembrou que são os artistas e produtores os
beneficiários dos valores cobrados.“Tudo
isto é um absurdo. Quando o absurdo é proposto, é uma coisa. Quando um
absurdo passa a um ato legislativo regional ou num ato pré-legislativo
nacional a coisa começa a ser grave”.O
diretor da Audiogest lembrou que já existem “tarifas substancialmente
reduzidas” para atividades sem fins lucrativos e garantiu “não ter
memória de terem existido particulares problemas de cobrança nas festas
populares dos Açores nos últimos anos”.“Conheço
bem os Açores. Conheço bem se há alguma idiossincrasia das festas do
Espírito Santo. Aí sim, vamos então tratar diferente o que é diferente.
Mas temos de identificar as diferenças e identificar se há outras coisas
com diferenças iguais”, sublinhou.Segundo
disse, a Audiogest já encetou contactos com Associação de Municípios da
Região Autónoma dos Açores (AMRAA) para “resolver alguma
idiossincrasia” relacionada com as festas na região, um processo que não
evoluiu devido à indefinição em torno da legislação.“Só
não evoluímos mais nesses contactos porque num momento em que não
sabemos como vai ficar a legislação - porque lamentavelmente esse
processo continuou - não faz sentido fazer um acordo agora sem saber o
que vai acontecer na Assembleia da República”, lamentou.Sobre
o conteúdo de anteproposta de lei aprovada na Assembleia dos Açores,
Miguel Carretas avisou que a diferenciação não pode ter apenas como
critério a “natureza jurídica das entidades”, porque isso poderá colocar
em causa o princípio da concorrência.O
responsável pela Audiogest reagiu, também, à posição do Chega/Açores que
defendeu a extinção daquela entidade e da Sociedade Portuguesa de
Autores.“Esse desejo do senhor deputado
Chega em relação à Audigosest teria eventualmente o mesmo destino de um
eventual desejo meu em relação à extinção do Chega: inoperante. Não
serve para nada. Não podem fazer, nem eu. Não estou a dizer que quero. É
um exemplo. Temos de viver uns com os outros”, declarou.A
anteproposta de lei, intitulada “Alteração ao Código do Direito de
Autor dos Direitos Conexos”, seguiu para a Assembleia da República, onde
vai ser apreciada e votada, depois de aprovada na Assembleia dos Açores
com os votos a favor do PSD (23), Chega (cinco), CDS-PP (dois) e PPM
(um), as abstenções de PS (23) e PAN (um) e contra do BE (um).