Atual composição do parlamento é “oportunidade única” para reformar justiça
Ano Judicial
20 de abr. de 2022, 15:01
— Lusa/AO Online
Na cerimónia de
abertura do ano judicial, no Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa,
Henrique Araújo defendeu uma “alteração mais estrutural” do sistema
judicial e abriu a porta a uma revisão da Constituição, ao salientar a
nova composição da Assembleia da República. “A
atual distribuição de forças políticas no parlamento constitui uma
oportunidade única para reformar o sistema de Justiça. Seria penalizador
para a sociedade que, num contexto tão favorável, a doce e sedutora
inércia acabasse por vencer”, afirmou o presidente do STJ, assinalando
que a abertura do ano judicial deve estabelecer “compromissos para um
entendimento alargado” dos vários agentes do setor.Henrique
Araújo traçou como “limite intransponível” em qualquer reforma “a
intocabilidade da independência do poder judicial” e avisou a classe
política de que a justiça não resiste “sem uma produção legislativa de
qualidade” e se esta se reger por esporádicos casos judiciais. Propôs
ainda a “grande utilidade” da criação de um programa de avaliação das
leis para aferir o seu impacto.“Uma
produção legislativa que não obedeça a impulsos espoletados por este ou
por aquele caso judicial, pela atuação deste ou daquele tribunal ou por
critérios de oportunidade política. As leis não se podem fazer com
pressa, a rebate dos sinos”, referiu, acrescentando: “Tudo sem recurso
aos modernos ‘outsourcings’ legislativos”.Ainda
em relação ao poder político, o presidente do STJ reiterou que o acesso
aos Tribunais da Relação e ao Supremo ocorre “muito tardiamente” e
alertou para o futuro agravamento das jubilações de magistrados,
identificando uma medida prioritária para o futuro próximo: “É preciso
intervir já, nomeadamente através da alteração da lei de acesso ao
Centro de Estudos Judiciários e do reforço da sua capacidade formativa”.Invocando
a importância da transparência na Justiça, Henrique Araújo salientou a
necessidade de uma reflexão sobre o regime de comissões de serviço de
magistrados judiciais na política e adiantou mesmo que a opção deve ser
exclusiva.“Quando se escolhe a
magistratura como profissão, essa escolha deve ter-se por definitiva. Se
a vocação política despontar no percurso de magistrado, a opção por
esse novo caminho não deverá permitir o regresso à judicatura”, disse.Por
último, o presidente do STJ enfatizou o escrutínio da justiça através
da comunicação social, rotulando-o como um serviço “relevantíssimo” e
“fundamental” à comunidade, mas criticou duramente “as repetidas e
descaradas violações do segredo de justiça” e exigiu maior fiscalização.“Continuam
a alimentar, impunemente, as primeiras páginas de alguns jornais; o
comentário sistematicamente genérico, de crítica fácil e infundada,
ocupa cada vez mais espaço comunicacional; a exposição da vida privada
das pessoas a braços com processos judiciais transforma alguns meios de
comunicação numa espécie de arena da devassa”, notou, concluindo: “É
mais do que tempo de se estancar a violação do segredo de justiça e de
se punirem os seus responsáveis”.