Associações empresariais dos Açores com leituras diferentes sobre saída da Ryanair

Hoje 16:25 — Lusa/AO Online

Em comunicado, a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) defendeu que a saída da Ryanair representa “a perda de um motor económico” dos Açores e a perda de “competitividade”, havendo um “risco real” de a região regressar “a um modelo de dependência de companhias de bandeira, com preços mais elevados, menor oferta e forte sazonalidade”.Os empresários de São Miguel e Santa Maria consideraram que a saída da companhia pode mesmo “significar uma estagnação do PIB [Produto Interno Bruto] regional, anulando grande parte do crescimento económico esperado”.“A Ryanair transportava mais de 100 mil turistas por ano para os Açores (mesmo quando já não tinha base em Ponta Delgada), sendo responsável por quase 10% das dormidas turísticas e por um impacto económico total que pode ultrapassar os 160 milhões de euros anuais”, referiu a associação empresarial, que já tinha apresentado um estudo sobre o impacto da saída da companhia.A CCIPD acusou o Governo Regional dos Açores de ter falhado nas acessibilidades, na promoção, na antecipação, na estratégia e na gestão de um setor “que representa cerca de 20% do PIB regional e que é hoje o maior motor da economia” açoriana.“Enquanto outras regiões, como a Madeira, planeiam, investem e negoceiam de forma profissional, garantindo crescimento sustentado e competitividade internacional – a mesma Ryanair que sai dos Açores entra na Madeira, onde já existe a Easy Jet –, os Açores ficaram para trás, presos a decisões erradas, a falta de visão e a uma governação desarticulada”, salientou.Os empresários criticaram ainda “a ausência de um plano credível de substituição da companhia, a incapacidade de diversificar companhias aéreas e a falta de liderança política”, que “deixaram os Açores vulneráveis, dependentes e expostos”.Em comunicado, a associação empresarial agradeceu à companhia aérea irlandesa “pelo papel determinante que teve na transformação económica dos Açores” e disse esperar “voltar a contar com a Ryanair num futuro não muito distante”.Deixou ainda um alerta ao Governo Regional de que está em causa “o futuro da economia” dos Açores, reiterando que a região precisa de “estratégia, profissionalismo e liderança”.Questionado pela Lusa, o presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo (CCIAH), Marcos Couto, defendeu, no entanto, que é preciso abandonar a ideia de que o turismo nos Açores está em queda devido à saída da companhia aérea de baixo custo.“A Ryanair abandonou a região, reduzindo em 75% a sua operação em 2023, e os números do turismo cresceram sempre de forma consistente ao longo deste tempo. Os números do turismo decrescem a partir de setembro de 2025 e a Ryanair ainda cá estava”, apontou.Marcos Couto alegou que o problema é “estrutural” e resulta, sobretudo, da “falta de promoção do destino”, dando como exemplo o facto de a associação Visit Azores ter executado “apenas 40% do seu orçamento”.“O turismo é um mercado extremamente competitivo e em que quem desaparece, esquece. E é isso que está a acontecer claramente e os resultados revelam-se automaticamente”, reforçou.O presidente da associação empresarial das ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa alertou, no entanto, que será difícil recuperar os índices de crescimento que a região registou nos últimos dois anos.“A conjuntura internacional não é de todo favorável, a conjuntura nacional também não é favorável e todos estes fatores combinados, obrigatoriamente, vão criar dificuldades ao turismo regional nos próximos tempos”, frisou.Marcos Couto disse acreditar que o vazio deixado pela Ryanair será ocupado, numa primeira fase, pela TAP e pela Azores Airlines, mas considerou “urgente continuar um trabalho de atratividade das companhias aéreas para o destino Açores”.O presidente da CCIAH admitiu “alguns constrangimentos” no verão, não só devido à saída da Ryanair, mas devido à redução de 32.703 lugares na operação da Azores Airlines.“O que está a acontecer é a falta de lugares disponíveis, fruto do abandono da Ryanair e da diminuição da oferta de lugares da SATA, o que faz com que, obviamente, a lei da oferta e da procura faça com que o preço aumente e que tenhamos aqui uma ideia absolutamente errada de que era a Ryanair que fazia baixar os preços”, apontou.Ainda assim, segundo Marcos Couto, os empresários do setor contam com “uma ocupação sensivelmente semelhante” nos meses fortes do verão, apesar de notarem uma diminuição da duração da época alta.