Associações ambientais põem Estado em tribunal por falhar lei de bases do clima
27 de nov. de 2023, 11:01
— Lusa/AO Online
Em
declarações à agência Lusa, a presidente da Último Recurso, Mariana
Gomes, disse estar convicta de que esta será uma "ação histórica", a
primeira no país para obter a redução de emissões de gases de estufa
através de decisões judiciais."Esta ação
faz história em Portugal porque é a primeira que menciona diretamente os
efeitos das alterações climáticas e a sua relação com o Direito, e é a
primeira que, na petição inicial, relaciona a violação do Direito com os
efeitos das alterações climáticas. Se a lei não for cumprida, os nossos
direitos serão violados, porque existem alterações climáticas que fazem
com que exista a necessidade da lei ser cumprida", sustentou.As
organizações Quercus e Sciaena formalizaram o seu apoio ao assinarem
conjuntamente esta ação civil, reafirmando o seu compromisso conjunto
pela justiça climática, indicou a Último Recurso.Mariana
Gomes, líder da associação fundada em dezembro de 2022, lembrou que
Portugal já foi alvo de várias ações ambientais, mas nunca uma que
relacionasse o Direito diretamente com as alterações climáticas, com
vista a obter uma sentença que reforce o compromisso do Estado nesta
matéria.Questionada pelo facto desta ação
ter sido anunciada há um ano pela Último Recurso, e só agora
concretizada, a jovem ativista de 22 explicou que "levou algum tempo
porque a ação foi totalmente construída `pro bono´, voluntária, sem
qualquer tipo de apoio de outras entidades"."Tivemos
também de aguardar algum tempo para que a maior parte dos prazos da lei
de bases do clima entrasse em incumprimento. Tentámos ao mesmo tempo a
via da negociação, através de conversas com os partidos políticos
envolvidos na criação da lei, dirigimos uma carta ao Presidente da
República, reuniões no Ministério o Ambiente, mas obtivemos uma fraca
resposta”, mesmo com o aviso prévio que iriam processar o Estado
português, “cuja responsabilidade termina no Governo”.Recordando
o compromisso português com o Acordo de Paris, em 2015, para manter o
aumento da temperatura abaixo dos dois graus centígrados, e o relatório
do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que veio
dizer que as metas nacionais de redução de gases de efeito de estufa
(entre 45% a 55% face a 2005) “são insuficientes”, a líder da Último
Recurso apontou o caso da Alemanha como referência para este processo.“Na
Alemanha houve um processo judicial parecidíssimo com este que estamos a
iniciar. Eles têm uma meta de redução por volta dos 50% e o Tribunal
Constitucional alemão disse que o Estado deveria reduzir 70% até 2030.
Há a questão de obter esta sentença judicial que aumente o compromisso e
a ambição de Portugal e, consequentemente, as políticas públicas
inerentes”, referiu. No entender da
ativista, a aplicação da lei "significaria idealmente que Portugal em
2030 iria conseguir atingir as reduções de CO2 necessários para manter a
Terra abaixo dos 1,5 ou 2 graus. O problema é que 99% dos prazos
definidos pelo parlamento na lei aprovada não foram cumpridos e quase
nada foi feito". "Isto significa uma
violação gravíssima dos nossos direitos constitucionais, nomeadamente o
direito à vida, a um futuro digno e das futuras gerações, e é colocada
em causa a confiança no Estado de Direito, que deveria cumprir as metas
europeias e o Acordo de Paris", salientou.Sobre
os objetivos da ação hoje interposta, enumerou quatro: "Nós queremos
que seja declarado que está em falta a adoção pelo Estado Português das
medidas necessárias e suficientes para assegurar a redução da emissão de
gases que produzem efeitos de estufa. Também deve ser assumido que está
em incumprimento na adoção das medidas políticas e legislativas
previstas na lei de bases do clima"."Queremos
ainda que o Estado seja condenado a adotar essas medidas, e seja
obrigado a produzir todos os atos políticos cujos prazos já estão em
incumprimento, e que o juiz decida que o Estado terá três meses para
cumprir toda a lei de bases do clima", acrescentou.