Associação Zero lamenta promulgação de diploma sobre construção em solos rústicos
27 de dez. de 2024, 11:00
— Lusa/AO Online
O
Presidente da República promulgou o diploma que cria um regime
excecional que permite a construção e urbanização onde atualmente não é
possível, mas alertou para “um entorse significativo” no regime de
ordenamento e planeamento do território.“Apesar
de constituir um entorse significativo em matéria de regime genérico de
ordenamento e planeamento do território, a nível nacional e local,
atendendo à intervenção decisiva das assembleias municipais e à urgência
no uso dos fundos europeus e no fomento da construção da habitação, o
Presidente da República [Marcelo Rebelo de Sousa] promulgou o diploma do
Governo”, pode ler-se numa publicação no ‘site’ da Presidência.Em
comunicado a Zero apelida de errada a decisão de promulgação e diz que
se o Presidente considera que a legislação constituiu um “entorse
significativo” deveria ter impedido o risco de uma “lesão permanente”.A
associação recorda no comunicado que o Governo, quando anunciou a
decisão, mencionou a possibilidade de construção em solos classificados
como rústicos e solos que têm classificação como REN [Reserva Ecológica
Nacional] e RAN [Reserva Agrícola Nacional], apesar de ter afirmado que
são salvaguardadas as “suas zonas mais críticas”.“Em
primeiro lugar, esta possibilidade traduz a profunda falha das
políticas de ordenamento do território, de fiscalidade e de
sustentabilidade, ao promover a expansão em mancha de óleo de mais zonas
urbanizadas, em detrimento da ocupação de edifícios devolutos, que
deveriam ser recuperados e reabilitados, ou de zonas infraestruturas
ainda não ocupadas”, afirma a Zero.No
documento a associação cita também um relatório deste ano da OCDE no
qual Portugal é o terceiro país (da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico) com maior número de fogos (574) por mil
habitantes, a seguir a Itália e França, além de estar no topo também em
maior percentagem de alojamentos vagos.Com
a mudança da lei, alerta a Zero, ficam em causa princípios de
ordenamento do território e estatutos de proteção de âmbito nacional,
sendo as decisões sujeitas a interpretações diferenciadas das
Assembleias Municipais, arriscando-se a construção em solos agrícolas e
ambientalmente importantes, e até em áreas classificadas.Recordando
a importância dos solos na manutenção da vida no planeta e na regulação
do clima, a Zero alerta que, “se Portugal tem preocupações com a
diminuição de riscos associados à crise climática, com a biodiversidade,
com o combate à desertificação, não pode fomentar este tipo de ocupação
livre de solos rústicos tão relevantes”.Diz
ainda a associação que a justificação deste diploma se enquadra “num
facilitismo que vai ter custos ambientais, económicos, e também
sociais”, e que o Presidente da República não devia ter promulgado a
proposta do Governo.