Associação pede mais rapidez na proteção das vítimas de violência doméstica e sexual
27 de mai. de 2025, 10:46
— Lusa/AO Online
“De
alguma forma não conseguem proteger a vítima de forma atempada e,
portanto, deveriam ser tomadas estas medidas de proteção e de coação às
pessoas agressoras de forma rápida”, disse à Lusa Daniel Cotrim, da
APAV, numa reação ao relatório sobre Portugal do Grupo de Peritos
Independentes do Conselho da Europa sobre a implementação da Convenção
de Istambul (GREVIO).No
documento, os peritos do Conselho da Europa admitem alguns progressos de
Portugal em relação a esta matéria, mas apontam várias lacunas, entre
elas a necessidade de formação obrigatória aos juízes para combater “as
sanções brandas e desproporcionadas” nos crimes de violência doméstica e
sexual.Questionado pela Lusa, Daniel
Cotrim lembrou que o número de queixas de violência doméstica é
desproporcional face às sentenças e às condenações aplicadas: “Vendo nós
o número de queixas de violência doméstica tão elevado, [a APAV
questiona-se] por que motivo o número de sentenças normalmente ou é
muito reduzido ou, então, são condenações a pena suspensa”.“Sabemos
que a taxa de incidência e de reincidência é extremamente elevada e que
a tomada de medidas como a responsabilização e a punição das pessoas
agressoras é fundamental para que também a sociedade perceba que a
violência doméstica não é um crime tolerável”, afirmou.O
responsável acrescentou que, por si só, “a punição não diminui nem irá
mudar comportamentos”, mas “passa, obviamente, uma imagem importante”.Quanto
à necessidade de formação dos juízes relativamente aos diversos tipos
de violência contra as mulheres, Daniel Cotrim considera-a fundamental,
lembrando que a justiça portuguesa “ainda está muito enviesada por
padrões patriarcais, machistas”, com “uma visão de uma família muito
tradicional”.“A violência doméstica,
apesar de ser um crime, como acontece numa dinâmica de intimidade, pode
ainda olhar-se para ela de uma forma mais ou menos condescendente”,
disse o responsável, explicando: “É como se fosse uma espécie de
consequência da vida da família que, se calhar, pode ser resolvida por
outros meios. Mas nós sabemos perfeitamente que não, basta olhar para os
dados do número de denúncias de violência doméstica em Portugal e
também, obviamente, para o número de homicídios em contexto de violência
doméstica”.Os peritos apontam igualmente a
necessidade de medidas de apoio especializado contínuo, como a
existência de uma linha telefónica nacional dedicada às mulheres vítimas
de todas as formas de violência que funcione 24 horas por dia, sete
dias por semana.A este respeito, o
responsável da APAV lembrou que o Estado tem uma linha que funciona 24
horas por dia, mas “não consegue responder de forma eficaz às situações
de violência doméstica porque elas não acontecem entre as 09h00 e as
17h00”.“Deveria ter um funcionamento quase
que em rede. Não deveríamos contar apenas e somente com as forças
policiais, mas também com as organizações de apoio, permitindo que (…)
pudessem intervir, e ter a colaboração dos tribunais e da saúde”, disse.Quanto
à falta de lugares nas casas de abrigo apontada pelos peritos, Daniel
Cotrim reconheceu que estas estruturas são “importantes e devem ser
olhadas como resposta para situações de emergência”, lembrando que o
prioritário é a aplicação rápida de medidas para evitar ter de retirar
as vítimas de suas casas.