Associação estima que mais 100 milhões para cuidados continuados serão desperdiçados
PRR
11 de set. de 2025, 16:31
— Lusa/AO Online
"Segundo
os meus cálculos, seguramente mais de 100 milhões, ou seja, mais de 50%
do PRR para os cuidados continuados não vão ser gastos e, portanto,
Portugal não vai receber essa verba, infelizmente", disse à Lusa José
Bourdain, que lamentou que o Governo "tenha incentivado as unidades a
avançares para obras mesmo sabendo dos enormes atrasos".O
presidente da Associação Nacional de Cuidados Continuados (ANCC)
acrescentou que escreveu ao primeiro-ministro e ao ministro da Coesão
(responsável pelos fundos do PRR) "há meses", mas não recebeu qualquer
resposta. O responsável insistiu no
sub-financiamento das unidades, sublinhando que "mesmo com a majoração
na verba para por metro quadrado de construção o valor é curto"."Neste
momento [o metro quadrado de construção] está à volta dos 1.600, 1.700
ou 1.800 euros o metro quadrado, dependendo do equipamento. No caso dos
cuidados continuados, como têm questões técnicas muito mais complexas e
são áreas maiores, neste momento, está na ordem dos 1.800 euros/m2.
Portanto, os tais 700 euro/m2 que dão a fundo perdido significa qualquer
coisa perto de 30% daquilo que verdadeiramente custa uma obra. Isto sem
IVA", explicou.O responsável adiantou
que, mesmo com a majoração - o valor passou de 30 mil euros/cama para 42
mil euros/cama - "é curto porque este valor há uma percentagem que é
aplicada à obra, outra ao equipamento e outra aos projetos"."Face
aos metros quadrados envolvidos estamos a falar de qualquer coisa como
700 euros um metro quadrado, o que é um valor perfeitamente ridículo
face aos valores que são praticados", acrescentou.O
presidente da ANCC deu ainda o exemplo do concelho de Sintra, onde fica
a sua instituição, revelando que se candidatou ao PRR para 143 camas de
longa duração - "a tipologia que mais falta faz" - e 30 vagas em
unidade de promoção da autonomia."Só para a
minha instituição eram 173 vagas, mais outras cinco entidades que se
candidataram, só para camas de internamento são mais de 400 no conselho
de Sintra. Nenhuma avançou", lamentou, sublinhando: "Eu diria até que é o
conselho mais prejudicado do país".Reconheceu
que o atual Governo herdou "enormes atrasos" do anterior, mas defendeu
que "poderia ter resolvido, imprimindo outra dinâmica, mas não o fez"."Lançou
os avisos demasiado tarde, analisou candidaturas demasiado tarde, mas
incentivou as unidades a concorrerem, a avançar", disse.O
presidente da associação contou também que só depois de terem sido
assinados os contratos em Lisboa e Vale do Tejo, a meio do mês de abril,
é que, numa reunião com a secretária de Estado da Gestão da Saúde, foi
informado do que as unidades que não conseguissem ter as obras
concluídas a 30 de junho de 2026, deveriam desistir, podendo a verba ser
usada para equipamentos hospitalares.O
responsável recordou que a ANCC já tinha por diversas vezes alertado
para os atrasos no lançamento dos concursos nesta área do PRR, no
anterior e atual governos, e disse ter estranhado que, na cerimónia de
assinatura dos contratos em abril tenha sido anunciada a publicação de
“novo aviso para as restantes camas que sobraram”.Para
tentar recuperar os atrasos e conseguir executar as verbas do PRR, José
Bourdain chegou a pedir legislação específica (uma espécie de ‘via
verde’) para acelerar licenciamentos o processo.Lembrou
que muitas entidades investiram centenas de milhares de euros em
projetos, contraíram créditos bancários, algumas avançaram mesmo para
concursos públicos (com alguns a ficarem desertos devido à constante
subida de preços), tendo já assinado contratos.O
responsável disse ainda que na Região de Lisboa e Vale do Tejo, esta
situação envolve “cerca de metade da meta do PRR, que são mais de 2.000
camas em cuidados continuados”.