Associação de Médicos contra "manutenção da vida a qualquer custo"
Eutanásia
15 de fev. de 2020, 18:50
— AO Online/ Lusa
Jaime Teixeira Mendes comentava desta forma à agência Lusa a despenalização da morte medicamente assistida, que vai ser discutida e votada na Assembleia da República no dia 20 de fevereiro.Apesar de considerar que atualmente há “problemas bastante mais importantes” para debater, nomeadamente “a defesa do Serviço Nacional de Saúde talvez”, o cirurgião pediatra diz que vê com “bons olhos que se volte a discutir este problema que também é importantíssimo para a vida das pessoas”.Para o ex-presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem do Médicos, é necessário haver mais debates sobre este tema e esclarecer que há eutanásia ativa e eutanásia passiva.“A eutanásia passiva é a paragem de todo o tratamento, o que se faz todos os dias nos hospitais, a eutanásia ativa é darmos a palavra ao doente, considerarmos a autonomia e a autodeterminação do indivíduo que está em sofrimento físico e mental, que está a ver degradar toda a sua condição e a lei não permita que peça para terminar com a sua própria vida”, explicou Jaime Teixeira MendesSobre os argumentos usados contra a eutanásia, nomeadamente o reforço do investimento nos cuidados paliativos, o médico afirmou que “é um argumento um bocado falacioso”, porque “há doentes que não querem entrar em cuidados paliativos e não se pode obrigar ninguém”.Por outro lado, frisou, “há um momento em que mesmo os cuidados paliativos se esgotam e, muitas vezes, o que acontece nos hospitais é no fundo deixar o doente morrer, não o alimentando ou sedando de tal maneira que acaba por provocar a sua morte”, tratando-se uma eutanásia passiva.“Às vezes na discussão da eutanásia ativa parece que é dar um tiro no doente e acabou, não é isso. E não é aceitar logo o querer da pessoa, tem de ser uma comissão a analisar o caso, falar com a pessoa, falar com a família, indicar-lhe que há mais hipóteses como os cuidados continuados, os cuidados paliativos”, salientou Jaime Teixeira Mendes.Para o médico, na eutanásia “está-se a passar um bocadinho como o ataque que foi feito à interrupção voluntária da gravidez”.“A lei pode no fundo prever as especificidades de uma morte medicamente assistida e isso protege também o médico, porque será um suicídio medicamente assistido, como se pratica na Suíça e aí todo o problema deontológico dos médicos é assegurado”, defendeu.No seu entender, era “muito importante” ouvir a opinião da comunidade médica, sobretudo dos que trabalham com os doentes terminais.A Assembleia da República debate em 20 de fevereiro cinco projetos de lei para a despenalização da morte assistida, do BE, PS, PAN, PEV e Iniciativa Liberal, que preveem essa possibilidade sob várias condições.Em 2018, o parlamento debateu projetos de despenalização da eutanásia, apresentados pelo PS, BE, PAN e Verdes, mas foram todos chumbados, numa votação nominal dos deputados, um a um, e em que os dois maiores partidos deram liberdade de voto.Há dois anos, o CDS votou contra, assim como o PCP, o PSD dividiu-se, uma maioria no PS votou a favor. O BE, PAN e PEV votaram a favor.Um grupo de cidadãos está a recolher assinaturas para realização de um referendo sobre a matéria, que tem o apoio da Igreja Católica, ao contrário do que aconteceu em 2018. Dos partidos com representação parlamentar, apenas o CDS apoia a ideia, assim como vários dirigentes do PSD.