Associação de insuficientes renais critica condições "desumanas" da hemodiálise em Ponta Delgada
11 de nov. de 2021, 11:04
— Lusa/AO Online
“Há uma falta de humanismo no
transporte de alguns doentes – não são todos – em São Miguel, coisas que
não se admite na realidade nos tempos de hoje. Um doente que termina um
tratamento de hemodiálise, com efeitos físicos, emocionais e
psicológicos, tem de esperar uma hora e meia a três horas para retornar a
sua casa”, afirmou o presidente da APIR nos Açores, Osório Silva.O
responsável da associação falava, em conferência de imprensa, em Angra
do Heroísmo, na ilha Terceira, depois de ter feito denúncias sobre as
condições do serviço de hemodiálise do Hospital do Divino Espírito
Santo, em Ponta Delgada, à margem de uma visita ao local, no fim de
semana passado.Osório Silva, que é
dirigente do PS, reiterou as queixas, salientando que ainda não se
resolveram, e criticou a reação do secretário regional da Saúde e
Desporto, Clélio Meneses, que é militante do PSD.“O
senhor secretário da Saúde, mais preocupado, e por assim dizer,
incomodado com individualidades que têm opções políticas diferentes das
dele, reagiu às legítimas manifestações e preocupações apresentadas pela
delegação da APIR, através do seu representante nos Açores, sem,
contudo, conseguir dar respostas cabais às lacunas apresentadas nem
assumir as suas responsabilidades”, acusou.Para
além do “mau funcionamento do transporte”, Osório Silva alertou para a
necessidade de “melhoria das instalações e equipamentos do serviço”.Segundo
o responsável da APIR nos Açores, a unidade de hemodiálise de São
Miguel tem capacidade para 109 doentes e acolhe atualmente 100, tendo 70
em consulta pré-diálise.“Se há aqui um
azar de aumentar o número de insuficientes renais crónicos em fase
terminal na ilha de São Miguel, se há infelicidade de os doentes
transplantados regressarem à hemodiálise, aquele serviço vai ter
enormíssimas responsabilidades para dar resposta”, alertou.A
associação queixou-se ainda de falta de recursos humanos no serviço,
alegando que existem apenas dois nefrologistas e 19 enfermeiros.“O
que não podemos aceitar é que haja um retrocesso na qualidade dos
serviços prestados na saúde. E infelizmente isso tem acontecido. No
passado, a APIR também se pronunciou sobre os transportes, mas a
realidade hoje comparada com 2019 piorou”, apontou Osório Silva.O
presidente da APIR disse que, em março, chegou a estar agendada uma
reunião com o secretário regional da Saúde, a pedido do governante, mas
foi “cancelada horas antes do previsto”, tendo sido exigido que o
encontro se realizasse de forma presencial, ao contrário do que
solicitava a associação.“Há a
indisponibilidade do senhor secretário para reunir por videoconferência e
a reunião foi cancelada e, a partir daí, não tivemos mais ‘feedback’ da
parte do senhor secretário”, salientou Osório Silva, alegando que os
membros da associação, por serem insuficientes renais, preferiam
reunir-se por videoconferência, devido à pandemia de Covid-19.Questionado
pela Lusa, o secretário regional da Saúde, disse que o presidente da
delegação da APIR nos Açores se “recusa a reunir com o governo” e que
“prefere falar para a comunicação social”.“Tentámos
por várias vezes fazer uma reunião presencial com a associação e a
associação sempre se recusou a fazer essa reunião”, afirmou, acusando
Osório Silva de “fazer política através de uma associação que
representa”.Confrontado com a recusa de
reunir por videoconferência, Clélio Meneses disse que já aconteceram
várias reuniões “cumprindo todas as regras de segurança” e rejeitou
“alimentar a vontade da pessoa em causa de fazer disto uma modo de
protagonismo”.Quanto às queixas sobre o
serviço, governante alegou que muitas delas se arrastam “há anos” e que o
atual executivo, que tomou posse em novembro de 2020, está a
resolvê-las.Para além de estarem previstas
obras “que ficaram por realizar durante anos”, Clélio Meneses avançou
que “está autorizada a abertura de concursos para médicos nefrologistas”
e a contratação de um número de enfermeiros “significativamente
superior ao que foi feito nos últimos anos”.Em
relação ao transporte dos doentes, afirmou que “não é propriamente uma
competência do secretário”, mas que “há uma sensibilização para que
todas as condições sejam dadas a todos os doentes da região”.