Associação de Gondomar dá aulas de mergulho a utentes com paralisia cerebral
27 de dez. de 2017, 11:27
— Lusa/AO online
Em
curso há cinco anos em parceria com o Centro Cultural e Desportivo da
Câmara do Porto, o projeto de mergulho adaptado, disse à agência Lusa a
coordenadora de voluntariado da APPC Filipa Luz, "surgiu da vontade de
criar atividade diferenciadas e aumentar a participação de jovens
adultos com paralisia cerebral".Mensalmente,
na piscina da Villa Urbana, unidade residencial da APPC onde vivem 31
pessoas com paralisia cerebral, participam nas sessões entre cinco e
oito utentes de uma associação que tem "desde serviços educativos a
serviços para pessoas com deficiência, acompanhando diariamente cerca de
1.500 pessoas", disse a coordenadora. E
sobre as mudanças que a frequências das aulas permitiu, Filipa Luz
destacou a "oportunidade de poderem participar em algo diferente",
frisando que as pessoas "são constituídas pelo número de experiências
que conseguem vivenciar ao longo da sua vida" e o que o facto de ter
nascido esta escolha "implicou na sua qualidade de vida". "Uma
vez por mês é a periodicidade possível, não apenas por uma questão de
logística do espaço”, mas também para permitir a todos participarem,
numa experiência que já chegou a "um alargado número de utentes".Mergulhador
há 33 anos e instrutor há 20, José Roças lidera a equipa de quatro
mergulhadores voluntários que, em sessões de cerca de uma hora, permitem
a quem passa o dia, por exemplo, numa cadeira de rodas, ter a sensação
de caminhar dentro da piscina.Equipados
com colete, botija de ar comprimido e, sobretudo, muita atenção e
dedicação dos mergulhadores, os utentes da APPC, com diferentes níveis
de paralisia cerebral, podem evoluir na piscina de diferentes formas,
aprendendo, sobretudo a "respirar debaixo de água".José
Roças explicou à Lusa que as sessões "consistem em colocar um individuo
não adaptado, com o equipamento necessário para a prática do mergulho, a
sentir-se imbuído do espírito do mergulho, porque está debaixo de água e
a respirar". E
num grupo diferenciado de utentes, há quem use barbatanas e faça
percursos subaquáticos na piscina e outros que, sendo de uma dependência
total, têm sempre dois mergulhadores a acompanhá-lo."Existe
o estigma de que o indivíduo deficiente é um extraterrestre quando, na
verdade, consegue fazer coisas que nós, ditos normais, achamos que é um
bocadinho perigoso, mas que eles fazem porque se sentem seguros e querem
partilhar a vida connosco e ser o mais normais possível", argumentou o
instrutor que do trabalho dos seus alunos disse ser igual ao dos demais,
"exigindo tempo e treino".Da
evolução que acompanhou, disse haver pessoas que "estão nisto há alguns
anos e cuja mudança é enorme", exemplificando com o simples gesto de
colocar a máscara de mergulho: "alguns não conseguiam pôr uma máscara de
mergulho e hoje não só têm a mascara, mas também conseguem andar
debaixo de água e conseguem respirar".Para
José Roças, a "maior dificuldade é interagir, conseguir que o individuo
perceba o que se lhe quer dizer e que consiga dizer se está bem ou se
está mal e isto, às vezes, demora meses".Do
seu trabalho neste projeto de voluntariado disse ser "uma realização
pessoal e uma satisfação", sustentando que o seu "grande objetivo é que
tenham a possibilidade de mergulhar desde que o queiram"."Estes
são um exemplo, pois com mais dificuldade fazem-no e isso dá-me um
orgulho e uma satisfação enorme. E com a equipa que tenho conseguimos
fazer estas coisas", acrescentou o instrutor que questionado se havia
uma idade limite para a frequência respondeu que desde que "haja
capacidades físicas o poderão fazer".