Associação critica falta de vontade política no rastreio do cancro do pulmão
30 de jul. de 2025, 16:23
— Lusa/AO Online
Na
véspera do Dia Mundial do Cancro do Pulmão, Isabel Magalhães realçou a
importância de avançar com um programa de rastreio desta doença, que
continua a ser o tumor oncológico com maior mortalidade associada,
decorrente de grande parte dos diagnósticos serem feitos “numa fase
muito avançada”. “Quando o diagnóstico é
feito numa fase inicial, podemos ter taxas de sobrevivência até oito
vezes superiores àquelas que temos quando ocorre numa fase de tardia,
que é o que acontece atualmente”, salientou.Isto
deve-se, entre outros motivos, ao facto de ser uma doença que na fase
inicial, muitas vezes, não apresenta sintomas, ou quando apresenta, são
confundidos com outras patologias, disse, salientando que o cancro do
pulmão atinge maioritariamente fumadores ou ex-fumadores, que
representam cerca de 85% dos diagnósticos. Segundo
o Instituto Nacional de Estatística, só em 2023, esta doença causou
4.490 mortes em Portugal, o valor mais elevado em 20 anos, o que causa
em média 12 mortes por dia. Para alterar
esta realidade, Isabel Magalhães defendeu ser “absolutamente
imprescindível e fulcral” existir um programa nacional de rastreio como
existe para outros cancros, como o da mama, que apesar da sua elevada
incidência, apresenta uma taxa de mortalidade muito inferior, graças à
possibilidade de diagnóstico precoce através do rastreio.A
Associação Portuguesa de Luta Contra o Cancro do Pulmão também destaca a
importância de garantir o seguimento adequado de cada caso detetado no
rastreio, possibilitando que o doente tenha acesso a toda a inovação
existente, em tempo oportuno.“A Pulmonale
tem sido a entidade que tem vindo a agitar este assunto desde 2021”, ano
em que reuniu um conjunto de peritos que elaborou um projeto-piloto de
rastreio nacional, que foi apresentado aos sucessivos governos, mas que
ainda não saiu do papel.Questionada sobre o
que tem falhado, Isabel Magalhães apontou a “falta de vontade
política”. Apesar de muitas vezes se dizer: ‘sim, vamos avançar’, como
aconteceu em 2022, quando a União Europeia anunciou a introdução de
novos rastreios nos planos nacionais de rastreio, "depois não acontece
nada”.“A atual tutela referiu, muito
recentemente, que vão avançar dois projetos-pilotos, [mas] tanto quanto
sei, não houve nenhum detalhe sobre isto. O que esperamos realmente é
que esses projetos avancem, sejam quais forem, porque é uma questão
premente, urgente”, disse, alertando que Portugal já está com “um atraso
enorme” relativamente ao que acontece “por esse mundo fora”.“Espero
que não se fique mais uma vez no plano das intenções e realmente se
avance”, porque o rastreio permite reduzir a taxa de mortalidade em mais
de 20%.Sobre o panorama nacional no tratamento do cancro do pulmão, Isabel Magalhães afirmou que existem “várias realidades” no país.
O tratamento exige uma abordagem multidisciplinar, com equipas
preparadas e linhas orientadoras, para que os doentes tenham o mesmo
tipo de acesso, “independentemente do código postal da sua habitação”, o
que, disse: “Não tenho a certeza que isso aconteça em Portugal”.
Exemplificou que muitos dos diagnósticos são feitos pelo médico de
família. Contudo, o acesso à medicina geral e familiar não é uniforme no
país, disse, exemplificando que “o acesso na região Norte é muito
diferente daquele que existe, por exemplo, na Grande Lisboa”.Por
fim, apontou como “muito positivo” os “bons profissionais” –
pneumologistas e oncologistas – que existem no país, que estão alinhados
com as práticas internacionais”, bem como a inovação que tem vindo a
ser aprovada em Portugal, “ainda que muitas vezes com atraso”.