Associação admite providência cautelar para travar obrigatoriedade da StayAway Covid
15 de out. de 2020, 11:07
— Lusa/AO Online
Em
comunicado, a associação defende que “a obrigação de instalação de uma
‘app’, qualquer que seja, é uma intrusão inédita e antidemocrática,
digna do autoritarismo chinês e não do modelo europeu de sociedade”.“Tal
obrigatoriedade, a acontecer, estaria em explícita contradição com as
recomendações da Autoridade Europeia de Proteção de Dados, com a
recomendação da Comissão Europeia e ainda com as recomendações do
Conselho da Europa no que toca a este tipo de ‘apps’”, acrescenta a
associação, que se mostra disponível para avançar com uma providência
cautelar.O vice-presidente da D3, Ricardo
Lafuente, citado no comunicado, defende que cada cidadão tem o direito
de colocar o que entende nos seus dispositivos e diz esperar “que a
sensatez prevaleça e esta ideia grotesca fique pelo caminho”.“Considerando
que o código-fonte do ‘software’ utilizado não está publicado na
totalidade, pois falta a componente fundamental relativa à parte que é
controlada por Google e Apple e cujo funcionamento não conhecemos, é
mais que legítimo questionarmo-nos sobre se queremos ou não instalar
esta ‘app’”, afirma.O responsável diz
ainda que, com a tentativa, através do parlamento, de tornar obrigatória
a instalação da ‘app’ StayAway Covid, “este direito de escolha é agora
eliminado, em muitas circunstâncias, forçando o uso de uma aplicação sem
provas dadas e de eficácia muito questionável”.“Ainda
não existe qualquer demonstração de que a Stayaway ou outra ‘app’ do
género poderá fazer a diferença. A ausência de qualquer sinal de
sucesso, ou sequer de impacto, em Portugal ou noutro país, deixa-nos
apreensivos quanto ao papel desta ‘app’ no combate à pandemia, e apenas
por fé cega se pode avançar com uma medida como a obrigatoriedade”,
insiste.A associação defende que a
legislação “deve ser feita com base nas evidências” e sublinha que, até
ao momento, “não existe qualquer avaliação pública sobre o impacto ou a
eficácia da utilização da ‘app’”.“Aliás,
os próprios proponentes da ‘app’ sempre fizeram questão de salientar que
a Stayaway é um mero complemento ao rastreio manual. No entanto,
constatamos que a iniciativa de tornar a app obrigatória não é
acompanhada de anúncios sobre o reforço do rastreio manual, pelo que só
podemos concluir que as prioridades se trocaram – nada de novo para quem
tem acompanhado o processo e a opacidade que tem caracterizado a
informação do Governo, DGS e Inesc Tec, relativamente à Stayaway”,
acrescenta.Diz também que, como o Governo
anunciou desde o início que o uso da aplicação seria sempre voluntário,
há uma “quebra de confiança” por parte dos cidadãos.“O
Governo falta agora ao prometido, e arrasa com qualquer capital de
confiança que pudéssemos ter no que toca às premissas desta ‘app’. Que
certeza temos agora de que, em próximas atualizações, a ‘app’ não comece
a registar a localização das pessoas? Como podemos estar seguros de que
o nosso anonimato será mesmo mantido? Depois disto, o que podemos
esperar?”, questiona.Defende que, passando
a instalação a ser obrigatória na maioria dos contextos, “os cidadãos
ficarão à mercê da arbitrariedade não só das decisões do Governo, mas
também da Google e da Apple”.“A maior
parte das pessoas não poderá ficar de fora, sob pena de perder o
emprego, e sabe-se lá que surpresas as próximas atualizações da ‘app’
vão trazer aos telemóveis de cada um e uma de nós”, frisa.A
associação diz ainda que o anunciou do Governo trouxe uma “enorme
confusão sobre as consequências da instalação obrigatória” e questiona,
entre outras matérias, o que acontecerá com aqueles que não têm
smartphone compatível com a app e se é suposto os professores ou
empregadores vigiarem os dispositivos dos alunos ou dos trabalhadores.Pergunta
ainda, se a ‘app’ indicar que a pessoa esteve próximo de um contacto
positivo e o SNS24 aconselhar isolamento, se a pessoa tem falta
justificada ao trabalho ou a um exame e pergunta ao Governo se já
articulou com a Google e a Apple a publicação do código-fonte completo
da aplicação.A associação questiona ainda a
utilização prática da aplicação StayAway Covid, perguntando: “Afinal,
entre as pessoas que contactaram a Saúde24 por terem recebido na ‘app’
um alerta de possível contágio, quantas testaram positivo?”.A
Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) também alertou na
quarta-feira que tornar o uso da aplicação StayAway Covid obrigatória
“suscita graves questões relativas à privacidade dos cidadãos”,
adiantando que aguarda pela oportunidade de se pronunciar no Parlamento.