As “Velhas” são uma das manifestações de arte popular mais ricas e originais
Hoje 15:39
— Ana Carvalho Melo
O que o motivou a escrever o livro “Os Açores em 50 Velhas”?A minha principal motivação foi envolver o leitor numa viagem pelas nove ilhas dos Açores, celebrando, a cada paragem, a riqueza da nossa cultura popular e do nosso património cultural e natural. Foi neste contexto que as Velhas (ou Velhas da Terceira) me pareceram, desde cedo, um fio condutor apropriado, não só por serem uma tradição genuinamente açoriana – à qual estou ligado há mais de vinte anos –, mas também pelo seu caráter burlesco, ousado e festivo, capaz de cativar públicos de todas as idades e gerações. Além disso, deixei-me ainda seduzir pelo desafio de reencontrar, através destas “Velhas das Terceiras” (alusão ao antigo epíteto dos Açores, as “Ilhas Terceiras”), as cores, os cheiros e a atmosfera de cada ilha, procurando ao mesmo tempo sondar a alma do imaginário popular açoriano.A obra “Os Açores em 50 Velhas”, com chancela Letras Lavadas, propõe uma viagem literária e musical pelo arquipélago. Que critérios guiaram na escolha das ilhas, temas e registos que quis representar neste itinerário?Acima de tudo, guiei-me pelo propósito de retratar as tradições e atrações mais emblemáticas de cada uma das nove ilhas dos Açores, com base em três grandes pilares que se complementam entre si: as Velhas – no fundo, a argamassa conceptual da obra –, os textos contextuais que descrevem cada um dos temas (que vão desde a chamarrita ao ananás de São Miguel e ao Algar do Carvão, para citar alguns exemplos), através dos quais procurei também divulgar alguma informação menos conhecida do público em geral e, por fim, os excertos literários alusivos às mesmas, recolhidos a partir de obras de autores consagrados como Natália Correia, Dias de Melo, Alice Moderno, Vitorino Nemésio, João de Melo e Katherine Vaz, entre muitos outros.As Velhas são uma forma poético-musical com raízes medievais e uma identidade profundamente açoriana. O que mais o fascina nessa tradição e o que a torna relevante para o público de hoje?Fascina-me, acima de tudo, o facto de as Velhas constituírem uma das manifestações de arte popular mais ricas e originais em Portugal. Essa riqueza está patente, por exemplo, na intersecção que estabelecem não só com a poesia satírica, o registo humorístico e a arte do subentendido, do duplo sentido e dos jogos de palavras, mas também com a música, a expressão teatral, o repentismo e o folguedo popular, primando ainda, em muitos dos seus versos, pelo protagonismo inusitado de velhas afoitas e da dupla mais consagrada da música tradicional açoriana: tua avó e teu avô. Trata-se de uma herança cultural inestimável que enriquece sobremaneira o panorama cultural não só da região como de todo o país, e que temos o dever de estimar e preservar.A apresentação decorre amanhã, 19 de fevereiro, pelas 19h00, na Casa dos Açores em Lisboa. O que está preparado para este dia?A obra será apresentada pelo Victor Rui Dores, numa mesa que contará igualmente com a presidente da Casa dos Açores em Lisboa, Delfina Porto, e comigo. Seguir-se-á então uma sessão de Velhas ao vivo, interpretadas pelo próprio Victor Rui Dores em parceria com o grupo amador A Velha Ainda Não Morreu, os quais serão acompanhados pelos tocadores Duarte Braz e João Pimentel. No final, haverá ainda ocasião para um momento de convívio em torno de uma mesa de entradas e aperitivos.Estão previstas apresentações da obra na Região?É provável que venha a realizar-se uma apresentação na ilha do Faial, embora ainda não possa adiantar pormenores. Quanto às restantes ilhas e à diáspora, não há, por enquanto, iniciativas previstas. No entanto, se surgirem contactos nesse sentido, terei naturalmente todo o gosto em participar. Para já, o foco está no lançamento do livro no dia 19 de fevereiro, na Casa dos Açores em Lisboa, pelo que aproveito para deixar aqui um convite a todos os amantes da cultura açoriana e aficionados das Velhas que se encontrem em Lisboa nessa data.