As pessoas ficam mais desprotegidas com a falta de leitura
Hoje 11:28
— Nuno Martins Neves
Esta não foi a primeira vez que o jornal Açoriano Oriental apareceu na vida de Maria do Rosário Pedreira, apesar de ontem ter sido a primeira vez que entrou na redação do mais antigo jornal de Portugal. A razão para atravessar o portão verde do número 36 da Rua Dr. Bruno Tavares Carreiro, no coração de Ponta Delgada, não podia ser mais poética: a Maratona Literária da editora Letras Lavadas. Desafiada a escrever, a escritora e editora do Grupo LeYa sentou-se na redação deserta - ao fim de semana, os jornalistas escasseiam - e debaixo do açor que nas suas asas dá guarida ao jornal, foi ao baú das memórias buscar a primeira vez que ouviu falar do decano da imprensa açoriana.Foi um amor da juventude, que visitava amiúde a ilha de São Miguel, que lhe falou do jornal. E essa lembrança foi o ponto de partida para a peça que escreveu, à mão, no seu caderno, no silêncio daquele lugar de escrita, abafado apenas pontualmente pelo dedilhar do teclado deste escriba, que trabalhava enquanto aguardava pela oportunidade de falar com a autora de uma das coleções que marcaram uma geração (a sua também), o Clube das Chaves. Uma conversa pelo desafio de escrever, de ler, de editar, do sistema educativo e da sociedade, no seu todo, nos dias de hoje.Como é que encarou o desafio de entrar na Maratona Literária, que, para os escritores, é mais uma espécie de sprint?Estive logo para dizer que não, porque sou muito pouco repentista! E como eu sou mais conhecida como poetisa - e a poesia não me vem assim tantas vezes como eu gostaria - a verdade é que pensei que não seria capaz de fazer um poema. Mas como tenho uma grande experiência e treino - para as contracapas dos livros, letras de canções, crónicas mensais sobre Fado - algumas coisas fizeram-me acreditar que, mesmo não sendo poesia, eu seria capaz.E em segundo, mal soube que era aqui no Açoriano Oriental, achei graça por duas razões: primeiro, porque é um lugar de escrita, de jornalismo e de produção de texto; por outro lado, porque este Açoriano Oriental é um nome que está ligado à minha história de vida. Eu tive um namorado, quando tinha 20 e tal anos, que era um tipo que vinha imenso aos Açores, apaixonado pelas ilhas, e que sempre me falou muito do Açoriano Oriental. Havia essa memória que achei que podia criar uma ficção à volta de uma pessoa que vai finalmente a um sítio, de que ouviu falar tanto tempo antes.Precisava era de elementos reais, como a porta verde, o cabeçalho, aspetos que estavam diluídos numa memória muito antiga.Reparei que escreveu no caderno, ao invés do computador, como tem sido habitual nos restantes participantes da Maratona.Eu normalmente escreveria ao computador, mas vim poucos dias e o meu portátil é muito pesado. Achei que podia, como faço com os poemas, começar à mão e, quando acho que já têm um estado de adiantamento que já aceitei que pode ser o poema definitivo, passo ao computador.Não é que não preferisse ter escrito ao computador, mas é verdade também que nos poemas consigo escrever mais facilmente à mão o princípio.Com o advento das redes sociais e agora da Inteligência Artificial (IA), fala-se muito que as pessoas perderam a concentração, mas a escrita obriga a essa concentração.O que vemos no meio editorial, é que as pessoas, cada vez mais, não têm caligrafia. O que é uma coisa estranhíssima! Uma das marcas identitárias é, justamente, a nossa letra, é reconhecermos a letra de pessoas amigas, pais ou mães.É muito estranho ter uma geração que não tem essa marca identitária, porque está habituada a escrever ao telemóvel ou ao computador. Até me pergunto se, por exemplo, na PJ, que fazia testes de grafologia para identificar ladrões, perdeu-se esse serviço.A correspondência desapareceu: publicamos cartas de políticos, figuras históricas, escritores. Hoje, a correspondência é uma coisa rapidíssima, por e-mail, que as pessoas nem leem.Há uma dificuldade em ler um texto longo. Nas redes sociais, repare que, ou são imagens, ou são textos que à terceira linha dizem “ver mais”. É uma desabituação da leitura, que é culpa do digital.E ao mesmo tempo eu sempre percebi - e os especialistas falam disso - que a mão ajuda a pensar.Eu lembro-me que quando estudava, eu copiava excertos, fazia resumos à mão e isso ajudava-nos a memorizar e a entender a matéria.Hoje em dia, ninguém faz isso, e eu acho muito estranho.Há estudos que provam que dois alunos que fazem um teste, com o mesmo grau de competências, mas um faz no papel e outro no computador, o que faz à mão tem melhor nota.E eles explicam, uma coisa muito engraçada: é muito mais fácil no papel localizar. Quando leio um livro, sei em que parte está a passagem que gostei. Esse tipo de orientação desapareceu, porque a página digital é toda seguida.O estar escrito à mão e no papel é importantíssimo para o desenvolvimento de capacidades: cada vez mais estão com dificuldade em concentrar-se e isso tem a ver com a não utilização do papel, da caneta e da mãoEnquanto editora da LeYa, sente esse reflexo nos leitores? Pois um livro exige um compromisso.Sinto, sinto. Às vezes, recebemos cartas de leitores com questões que nos dão vontade de rir. Por exemplo, quando um autor deixa deliberadamente uma frase a meio ou porque uma personagem morreu, e o leitor não percebeu e pensa que tem um livro incompleto (risos).Mas ao mesmo tempo, o número de originais que hoje aparecem nas editoras para potencialmente ser publicados, o nível é muito baixo. Acho que todos acham que podem escrever um livro, que talento não é preciso, que é só trabalho. E não é! E como, das artes, a literatura talvez seja a mais barata - pois não pressupõe uma formação especial, não precisa de materiais que custam bastante, como a música ou o cinema - a verdade é que há muita gente que não tem o menor talento a querer publicar.Recebemos muitos, muitos originais sem qualidade nenhuma e, cada vez mais - e eu que estou nisto há 40 anos - nos últimos 10 anos, em todo o mundo, os tempos verbais desapareceram. Escreve-se quase sempre no presente do indicativo, o passado deixou de ter importância para as pessoas.E outra coisa muito curiosa é que há tempos verbais que desapareceram mesmo, como o condicional ou o conjuntivo, então, ninguém sabe escrever.Há alguns cientistas sociais que defendem que o desaparecimento desses tempos verbais significa uma geração que vai ter dificuldade em fazer previsões, porque só pensa no momento.[Os livros que recebo] É como se fossem roteiros, influenciados pelo audiovisual, sem nenhuma espécie de trabalho, tudo muito pobre. E por outro lado, às vezes começo a ler um candidato a romancista, imagine, e sinto que aquilo que estou a ler são notas para um romance, não o romance em si!Penso que isso tem a ver com falta de leitura, falta de léxico de palavras e, sobretudo, há estudos que mostram que se isto seguir como está, as pessoas não são menos inteligentes, mas terão muito mais dificuldade em defender-se porque não têm a linguagem para construir o argumento.E isto numa época em que a extrema-direita está a ressurgir em todo o mundo, mesmo em países que já se tinham libertado desta “febre”.A falta de leitura, de escrever à mão, está a contribuir para um mundo muito mais violento, mais duro e menos interessante, indiferente em relação ao clima, à violência que está longe.Que será agravado com a IA?Contribui ainda mais para a falta de esforço, de pensamento, de reflexão, de consulta. Hoje em dia, uma criança quando lhe pedem para fazer um trabalho na escola, biográfico, por exemplo, abre o computador e copia da Wikipedia. Isso é um horror, é tudo o contrário do que devia ser da aprendizagem: ler sobre o assunto, selecionar o que é mais importante e o que é acessório, levar o trabalho escrito por si! Nada disto é feito e quando dizemos algo ao professor, ainda fica ofendido.Toda esta educação baseada no digital é perniciosa, porque é uma formação muito falha, de tudo. E com a Inteligência Artificial, pior, porque a verdade é que os miúdos tornaram-se dependentes dessas ferramentas, não conseguem viver sem aquilo. Estão lado a lado a comunicar, sem falar. Essa desumanização preocupa-me muito com o que aí vem.É uma coisa à solta, e não pode ser proibida e já não vai ser parada.Obviamente que também não nego a grande capacidade da IA ser usada na Medicina, por exemplo. Acredito que para determinados fins, não pode ser melhor, mas é preciso que, quem está por detrás dela, a saiba utilizar e a utilize com fins positivos. Dificilmente acredito que isso possa ser possível, pois estamos a ver guerras com drones apontados por IA. É terrível que um instrumento que podia poupar-nos a vida (não sei porquê, porque sem nada para fazer também seria uma chatice), que seria para nos ajudar, está a criar muitos problemas a nível político, social....E no meio editorial também?Sim, nos prémios literários já nos aparecem muitas coisas que não temos como ver se foram produzidos por IA ou não.Antes de vir para o jornal, estava à porta do hotel e enviaram-me uma notícia sobre o prémio Goncourt, em França, a admitir que atribuiu o prémio a um livro que, agora se soube, foi produzido com IA. Claro que o autor o reviu, mas é assustador.Regressemos aos Açores, como vê o panorama literário do arquipélago?Tenho uma autora açoriana, uma finalista do prémio LeYa [n.d.r Leonor Sampaio da Silva, autora do livro Passagem Noturna], e prometo continuar a editar livros de autores açorianos que me são propostos, se gostar deles e se tiverem qualidade.Mas como tudo, Lisboa continua a ser o centro da atividade editorial: até autores meus do Porto se queixam que não têm a mesma projeção que os autores de Lisboa.Lisboa é muito centralizadora: os jornais estão ali, os críticos vivem ali, as atividades são ali...é mais fácil para quem vive na capital ter uma projeção, do que para quem vive nas ilhas, que está longe.É mais complicado, mas basta um e-mail para chegar à LeYa, que publicarei, independentemente da sua origem. É preciso que a Literatura chegue às pessoas e chegue com qualidade. Já há demasiadas coisas más por aí, penso que é preciso separar o trigo do joio.