As 3 mil horas de voo do “anjo” do oceano Atlântico
25 de ago. de 2025, 09:25
— Nuno Martins Neves
Foi a ver o “pessoal dos helicópteros” a sair e a chegar de missões de
busca e salvamento da Base Aérea n.º4, nas Lajes, ilha Terceira, que o
Sargento-chefe Vítor Casimiro soube o que iria fazer da sua vida. Corria
o ano de 2006, então com 31 anos e acabado de se formar na Força Aérea,
este natural de uma aldeia perto de Bragança dava início a sua carreira
de recuperador-salvador, que, 19 anos volvidos, fez com que atingisse
um marco histórico na Força Aérea Portuguesa: 3 mil horas de voo no
EH-101 Merlin, da Esquadra 752 - “Fénix”.O registo foi alcançado
numa ação de busca na ilha do Pico, uma das 538 missões operacionais que
já fez, contando com 272 evacuações aeromédicas e 105 missões de busca e
salvamento, divididos entre os Açores, a Madeira e Portugal
Continental. “Atingir este marco é um feito incrível e marcante na
vida de qualquer um. E na minha, pessoalmente, deixa-me muito orgulhoso.
São muitas horas dentro de um helicóptero, onde se vivem muitas emoções
diariamente, e nem sempre as coisas correm como nós desejamos, mas o
mais importante é nunca desistirmos e o nosso papel é ajudar quem
precisa e voltar para casa em segurança”, confidenciou em entrevista ao
Açoriano Oriental.As muitas mensagens que tem recebido, à conta do
marco atingido, deixam-no “envergonhado”, pois recorda que “isto é o
nosso papel. Nós deixamos de ter noção daquilo que fazemos, porque isto
torna-se tão normal”.Colocado definitivamente nos Açores desde
janeiro, Vítor Casimiro tem uma ligação quase umbilical à Região,
sentindo-se já “um pouco açoriano”. Depois de ter tirado o “exigente”
curso de recuperador-salvador, ficou destacado na Base Aérea número 6,
no Montijo, porque a esquadra 752 que existia na Base Aérea Número 4,
nas Lajes, tinha sido desativada com a substituição dos antigos
helicópteros Puma, que viria a ser substituída pela Esquadra 751, com os
atuais EH-101 Merlin.“Mas sempre fizemos destacamentos nos Açores:
éramos 12 elementos, e fazíamos destacamentos de 15 dias na Região,
depois voltávamos e íamos para a Madeira”.O mar dos Açores é,
contudo, um dos mais desafiantes que o Sargento-chefe já se encontrou na
sua extensa carreira de uma profissão que é, fisica e psicologicamente,
muito exigente. Classifica o mar açoriano como “o cenário ideal para
encontrarmos diariamente esse tipo de condições climatéricas, muitas
vezes marginais, principalmente quando executamos este tipo de missões.
Claro que tem que se estar bem fisicamente, sempre, mas isso aprendemos
desde que nos colocamos nesta posição de querer sermos
recuperadores-salvadores”.Nas 3 mil horas de voo a bordo do EH-101
Merlin, muitas são as histórias que Vítor Casimiro recolheu. As más,
diz, “são todas aquelas que infelizmente não deu para chegar a tempo
para ajudar quem precisava”. Das boas, recorda-se de duas, em
particular. Uma, em 2008, que ao abordar o pesqueiro que requereu ajuda,
partiu o pé. “Percebi que isso tinha acontecido, mas eu tinha que
sair dali e, já que tinha que sair dali, eu não ia sair sozinho. Então
usei o equipamento de salvamento, coloquei-o no pescador e viemos os
dois para cima. Para mim, isso foi um momento mau, mas ao mesmo tempo
gratificante por ter conseguido fazer esse salvamento”, reconta. Ficou
os seis meses seguintes parado, fruto da cirurgia e da fisioterapia
necessária para debelar o pé partido.A outra, ocorreu a 300 milhas
das Flores, já no limite de atuação do EH-101 Merlin, no resgate ao
veleiro Kolibri, onde seguiam a bordo quatro noruegueses. O ano era 2015
e pela frente a equipa de busca e resgate enfrentava condições
dantescas.“Fomos contactados, porque havia vários veleiros a pedir
ajuda, devido a um forte temporal que se abateu sobre a Região. Só que
nós temos o limite: apesar do alcance do nosso helicóptero ser muito
grande, com esta aeronave nós vamos às 400 milhas desde o ponto de
terra. Fomos a este, mas sabíamos que ia ser um dia complicado”.Levantaram
voo de manhã e após uma paragem para reabastecimento de combustível “e
tirar tudo o que não precisávamos” na ilha das Flores, partiram para o
local onde se encontrava o veleiro, já identificado pelo avião C-295M.“Quando
lá chegamos aquilo era só... só se via espuma branca. O veleiro era
branco, ainda mais difícil foi identificá-lo. Estamos a falar de 10
metros de ondulação, que, pelo reporte dos tripulantes, já tinha estado
maior, e ventos na ordem dos 90km/h”.O veleiro já tinha virado por
duas vezes, mas a tripulação tinha conseguido recolocá-la na posição
correta. “O cenário é... Nós muitas vezes não temos noção do perigo que
estamos a correr. Mas estamos conscientes, porque treinamos para isto”.A
ondulação “fora do normal” tornava a abordagem ao veleiro impossível,
por representar uma situação “extremamente perigosa” para o
recuperador-salvador. A solução passou por pendurar-se no cabo, descer e
pedir aos tripulantes para, à vez, saltarem para a água. Um a um, eram
içados até ao helicóptero, sãos e salvos.“Estas pessoas que andam no
mar têm noção de que há alguém que os pode ajudar e deixou-me muito
orgulhoso perceber o quanto confiaram em mim para se atirarem ao mar,
com ondas de 10 metros, sabendo que iriam ser recuperados. Porque eu
acredito que se não fosse o helicóptero, nunca mais conseguiriam
salvar-se”.Missões bem sucedidas que são como “medalhas”, mas que o
Sargento-chefe sublinha que são fruto de um trabalho coletivo. “O Vítor
Casimiro não trabalha sozinho: nós somos cinco elementos e se um falhar,
todos falham. Ninguém trabalha aqui sozinho dentro desta tripulação”.
Uma equipa que, além do recuperador-salvador, é composta por pilotos,
operador de guincho, médicos e enfermeiros.Um curso que leva ao extremoAlém
de resgatar pessoas no meio do Atlântico, o Sargento-chefe Vítor
Casimiro há 12 anos que ensina os próximos recuperadores-salvadores.
Como instrutor tático, reconhece que a profissão é muito apelativa, mas
também muito exigente para os formandos.“Sempre tivemos muita gente a
querer enveredar por isto. Infelizmente, os testes físicos são muito
exigentes, assim como o curso, o que faz com que as pessoas acabem por
ir desistindo. Não porque não tenham gosto em ser recuperador-salvador,
mas por se aperceberem que são levados, muitas vezes, no limite. Temos
que preparar as pessoas para esta realidade. Eles têm que saber qual é o
limite deles. E durante o curso isso acontece”.Apesar de todos os desafios e exigências, sublinha que as próximas gerações estão asseguradas.