Artista esculpe com motoserra rosto de Miguel Torga numa raiz de três toneladas
11 de ago. de 2020, 16:31
— Lusa/AO Online
“Torga e as
suas raízes” é o nome da obra que vai assinalar este ano o aniversário
do nascimento de um dos mais conhecidos autores do Douro e
Trás-os-Montes, que se assinala na quarta-feira. “Tem
muito mais sentido fazer esta intervenção no negrilho, árvore que ele
imortalizou através da sua escrita. A alma, a essência está nisso”,
afirmou à agência Lusa o escultor. O
trabalho foi feito ao vivo, na praça central de São Martinho de Anta, e é
através de motosserras que Óscar Rodrigues, natural de Vila Pouca de
Aguiar, dá forma à sua arte. A raiz tem
aproximadamente três toneladas. De um lado pode ver-se o rosto de Torga,
onde se percebem traços característicos do autor como o nariz longo e
os lábios finos, e do outro mantiveram-se as enormes ramificações que se
entrelaçam e se fundem.Na peça são percetíveis as cicatrizes que o tempo deixou na raiz, como algumas partes ocas.Óscar esculpe a madeira utilizando a técnica de "wood carving", ou seja com uma motosserra.“É
uma motosserra normalíssima, apenas tenho uma mais pequena e afiada
para fazer um detalhe mais de pormenor, específico”, explicou.Esta é uma técnica que o artista está a ajudar a divulgar em Portugal.Torga,
cujo nome de batismo era Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de agosto
de 1907 em São Martinho de Anta e, através da sua obra, imortalizou o
negrilho de grande porte que estava situado no largo do Eirô, na
localidade do concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real.A
árvore protagonizou, por exemplo, o poema “Negrilho” e curiosamente
terá secado, segundo se diz localmente, no ano da morte do poeta e
médico, em 1995.O presidente da Junta de
Freguesia de São Martinho de Anta e Paradela de Guiães, José Gonçalves,
afirmou à Lusa que, para este projeto, ainda se tentou aproveitar o
tronco do negrilho que tinha sido colocado no local original, numa base
de cimento.No entanto, segundo explicou, verificou-se que o tronco "estava já podre", pelo que foi decidido usar a raiz. “A
ideia foi reaproveitar o pouco que ainda existia e onde se conseguiria
fazer alguma coisa para homenagear o poeta e o próprio negrilho”,
salientou o autarca.Depois da escultura
estar terminada, a madeira vai ser tratada com vista à sua preservação e
proteção. Será também colocada, com a ajuda de uma grua, no local onde
originalmente estava o negrilho.José
Gonçalves referiu que desde sexta-feira, dia em que o escultor começou o
trabalho ao vivo, foram várias as pessoas que ali pararam para observar
e fazer perguntas sobre a escultura.Muitos
visitantes chegam à terra natal de Miguel Torga guiados pela sua obra e
ali é possível ver a casa onde residiu e que está a ser alvo de uma
intervenção por parte da Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN) ou
subir à capela da Senhora da Azinheira. Em
São Martinho de Anta abriu portas em 2015 o Espaço Miguel Torga, um
equipamento cultural, desenhado pelo arquiteto Eduardo Souto Moura, que
tem como missão principal a divulgação da obra escritor transmontano. Óscar
Rodrigues disse que se associou à homenagem a Torga porque é também um
admirador da forma de escrita “pura e dura” do escritor. Entre
algumas das suas obras destacam-se os "Contos da Montanha", "Bichos",
"A Criação do Mundo", "Senhor Ventura" ou "Vindima", e na poesia
"Rampa", "Abismo", "Lamentação", "Libertação" ou "Poemas Ibéricos".