Arqueólogo propõe criação do Parque Arqueológico do Ilhéu
11 de set. de 2025, 10:11
— Carlota Pimentel
O arqueólogo Diogo Teixeira Dias recomenda a criação do Parque
Arqueológico do Ilhéu de Vila Franca do Campo. A proposta integra o
relatório de uma prospeção arqueológica realizada em 2024, apresentado e
aprovado este ano pela Direção Regional da Cultura (DRAC).De acordo
com o documento consultado pelo Açoriano Oriental, o objetivo é
“proteger, conservar e divulgar o património imóvel e móvel”,
desenvolver “ações de salvaguarda dos valores culturais e naturais
existentes”, promover o estudo científico e garantir uma “fruição
pública regulada”, com zonas visitáveis e “planos de salvaguarda
específicos”.Além disso, o finalista de doutoramento em Património
Cultural e Museologia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
defende que o ilhéu deve dispor de uma solução interpretativa que
integre “conteúdos históricos, arqueológicos, biológicos e geológicos,
passíveis de fruição tanto presencial como digital”. Segundo o
investigador, esta solução deverá ser articulada com “as estruturas
locais, garantindo a acessibilidade a diferentes públicos e promovendo a
compreensão integrada do património”.Outra recomendação diz
respeito à sinalização dos “elementos patrimoniais relevantes e em
elevado risco de degradação, através de sinalética específica, de baixo
impacto visual e não dissonante na paisagem”, mas “eficaz para orientar a
visita e prevenir perdas irreversíveis”, que deverá ser acompanhada por
sistemas de monitorização periódica. O relatório refere também a
necessidade de novas prospeções arqueológicas subaquáticas, abrangendo a
área dos Canhões, o Cemitério das Âncoras, a Caldeira do Ilhéu e o
Boqueirão. Estas prospeções, sublinha Diogo Teixeira Dias, devem ser
acompanhadas por biólogos marinhos para avaliar o impacte ambiental das
intervenções. O arqueólogo recomenda ainda a publicação dos
resultados do relatório em formato de monografia, a disponibilizar a
instituições científicas, museológicas, escolares e turísticas, de modo a
reforçar “a visibilidade do património identificado e garantindo a sua
divulgação qualificada”. Entre as medidas propostas consta também a
realização de uma ação de formação dirigida ao Clube Naval de Vila
Franca do Campo e aos operadores marítimo-turísticos, “focada na
importância do património arqueológico do ilhéu, nas boas práticas de
visitação e nos conteúdos interpretativos, capacitando estes agentes
para serem multiplicadores desta informação junto dos visitantes”. Diogo
Teixeira Dias realça que “os resultados da prospeção arqueológica no
Ilhéu de Vila Franca do Campo demonstram, de forma inequívoca, a
relevância científica, cultural e patrimonial deste território insular,
bem como a sua vulnerabilidade a fatores naturais e antrópicos”. Conforme
explica, a diversidade de elementos registados, desde estruturas
portuárias e produtivas a contextos lúdicos, defensivos e ambientais,
“confirma a necessidade de uma abordagem integrada, que conjugue
investigação, conservação e fruição pública, garantindo a salvaguarda a
longo prazo”.Com base nos dados recolhidos, foram identificados
cerca de 70 pontos com interesse ou relevância histórica e arqueológica
no ilhéu. Entre os vestígios identificados no terreno, é assinalada a
presença de cabeços de amarração talhados diretamente na rocha, cuja
forma e localização indicam diferentes períodos e usos para fixação de
embarcações. Para o arqueólogo, isto evidencia “uma continuidade de uso e
adaptação às necessidades balneares e de transporte” ao longo dos
séculos.No que toca às atividades económicas históricas, Diogo
Teixeira Dias destaca a existência de um conjunto vitivinícola no
chamado ilhéu grande. Trata-se de uma “área considerável de socalcos
vitícolas” e de um compartimento de planta simples, em blocos de betão,
que o relatório interpreta como podendo ter servido de apoio à produção e
processamento de uva.O documento regista cientificamente um
tabuleiro de jogo gravado na rocha, do tipo mancala ou ouri, localizado
na zona do istmo. A peça é associada a práticas lúdicas de origem
asiática ou afro-atlântica, acrescentando uma dimensão cultural ao
espaço. A prospeção registou também os já conhecidos canhões
submersos nas proximidades da boca do ilhéu e o chamado “Cemitério das
Âncoras”. No entender de Diogo Teixeira Dias, este conjunto de
Património Arqueológico, em meio terrestre e subaquático, justifica
desde já uma classificação conjunta, podendo os dados atualmente
disponíveis serem “transformados em matéria-prima para uma fruição
cultural do ilhéu, complementar ou alternativa ao uso balnear”. CNVFC promove visitas guiadas ao Ilhéu de Vila Franca do CampoO
Clube Naval de Vila Franca do Campo (CNFVC) associa-se às Jornadas
Europeias do Património 2025, subordinadas ao tema “Património
Arquitetónico – Janelas para o Passado. Portas para o Futuro”, com a
realização de visitas guiadas ao Ilhéu de Vila Franca do Campo, a 13 e
14 de setembro, às 10h00. As visitas estarão a cargo do arqueólogo
Diogo Teixeira Dias, que orientará um percurso interpretativo denominado
‘Ilhéu de Vila Franca do Campo - Arquitetura e Arqueologia de uma
Paisagem Cultural’.Segundo nota de imprensa, o objetivo é dar a
conhecer ao público a singularidade patrimonial e histórica do ilhéu,
promovendo o contacto direto com este espaço de referência para os
visitantes e a comunidade local. A participação nas visitas é gratuita,
mas está condicionada à aquisição do bilhete de transporte do Cruzeiro
do Ilhéu e à lotação da embarcação.