Arguidos apostam na nulidade da prova obtida na investigação
Operação Marquês
25 de jan. de 2019, 12:06
— Lusa/AO Online
A
instrução da Operação Marquês vai levar a partir de segunda-feira ao
Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC) os advogados de uma lista
de arguidos com notoriedade, desde a política à economia, nomeadamente o
ex-primeiro-ministro José Sócrates, o antigo ministro da Juventude e
Desporto Armando Vara, os ex-administradores da PT Henrique Granadeiro e
Zeinal Bava e os empresários Carlos Santos Silva, Helder Bataglia, José
Diogo Ferreira e Joaquim Barroca.Um
dos mais importantes arguidos do caso, o ex-presidente do BES Ricardo
Salgado, não requereu a abertura da instrução, porque na altura não se
sabia se esta fase processual facultativa iria ser dirigida por Carlos
Alexandre, juiz que acompanhou os interrogatórios, ou por Ivo Rosa, que
viria a ser escolhido por sorteio eletrónico a 28 de setembro de 2018.José
Sócrates e o antigo administrador da Caixa Geral de Depósitos Armando
Vara, a cumprir pena de prisão no âmbito do caso Face Oculta, pediram a
nulidade relativa à distribuição do processo, realizada em setembro de
2014, ao juiz Carlos Alexandre, que acompanhou a fase de inquérito.No
Requerimento de Abertura de Instrução (RAI), Armando Vara solicitou que
fossem ouvidos os juízes do TCIC Carlos Alexandre, João Bártolo, a
presidente da comarca de Lisboa, Amélia Catarino, e os dois funcionários
judiciais que assistiram à distribuição, por sorteio, do inquérito, em
setembro de 2014, mas tal pretensão foi rejeitada, “por ora”, por Ivo
Rosa que considerou ser irrelevante para os fins da fase de instrução.O
empresário Carlos Santos Silva, amigo de longa data de Sócrates, e seu
“testa-de-ferro” segundo o Ministério Público (MP), alega que a prova
obtida durante a averiguação preventiva é nula por intromissão na sua
vida privada, falta de controlo do MP e pela não exportação de toda a
prova para a fase de inquérito.Após
o pedido de instrução de Carlos Santos Silva, o juiz decidiu solicitar
ao processo Monte Branco a junção aos autos da Operação Marquês de todas
as informações dos órgãos de polícia criminal, as promoções do MP e
todas as autorizações judiciais relativas a interceções telefónicas que
diretamente se refiram ao empresário, o interrogatório dos inspetores
tributários Luís Flora e Paulo Silva e o relatório da inspeção aos
serviços do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP)
realizado entre setembro de 2013 e março de 2014. Também
o ex-presidente da Portugal Telecom Henrique Granadeiro arguiu diversas
nulidades, nomeadamente do despacho de acusação por “insuficiência do
inquérito”, e pretende que o juiz de instrução não valide os elementos
sobre contas bancárias que foram obtidos pelo MP junto das autoridades
suíças.Henrique
Granadeiro pediu a inquirição de 15 testemunhas e também a junção aos
autos de “todas as atas das reuniões do conselho de administração, da
comissão executiva e da assembleia geral da Portugal Telecom SGPS entre
2006 e 2104”, inúmeros documentos que já constam do processo.A arguida Sofia Fava, ex-mulher de Sócrates, invoca a nulidade da acusação por “falta de fundamentação” e “ininteligibilidade”.José
Sócrates contesta a acusação por corrupção passiva, branqueamento de
capitais, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada, tendo
pedido para ser ouvido nesta fase, juntamente com dez testemunhas.O
juiz considerou apenas relevante ouvir cinco testemunhas, os
ex-governantes socialistas Teixeira dos Santos, Carlos Costa Pina,
Fernando Serrasqueiro e Paulo Campos.Para
o empresário luso-angolano Helder Bataglia, a lei penal portuguesa não é
competente para o sancionamento dos factos que constam da acusação –
cinco crimes de branqueamento de capitais - justificando que estes já
foram arquivados pelas autoridades angolanas. O
argumento levou o juiz a pedir às autoridades angolanas cópia do
despacho de arquivamento e à Autoridade Tributária portuguesa que
indique desde quando Bataglia deixou de ser residente fiscal em
Portugal. O
arguido e advogado Gonçalo Trindade Ferreira, acusado de branqueamento
de capitais e falsificação de documentos, pretende que José Sócrates e
Carlos Santos Silva deponham a seu favor, pretensão aceite pelo juiz,
mas ainda sem data.A
fase de instrução começa na segunda-feira no Tribunal Central de
Instrução Criminal em Lisboa com a arguida Bárbara Vara, filha de
Armando Vara, que no processo está acusada de dois crimes de
branqueamento de capitais em coautoria com José Sócrates, Carlos Santos
Silva, Joaquim Barroca, Armando Vara, Diogo Gaspar Ferreira e Rui Horta e
Costa.A
defesa de Bárbara Vara alega que a acusação é, “além de manifestamente
insuficiente, injusta e ilegal” e que existem erros de natureza
“factual, jurídica e probatória".A
Operação Marquês teve início a 19 de julho de 2013 e culminou na
acusação a 28 arguidos - 19 pessoas e nove empresas - pela prática de
quase duas centenas de ilícitos económico-financeiros.José
Sócrates, que esteve preso preventivamente durante dez meses e depois
em prisão domiciliária, está acusado de três crimes de corrupção passiva
de titular de cargo político, 16 de branqueamento de capitais, nove de
falsificação de documentos e três de fraude fiscal qualificada.Entre
outros pontos, a acusação sustenta que Sócrates recebeu cerca de 34
milhões de euros, entre 2006 e 2015, a troco de favorecimentos a
interesses do ex-banqueiro Ricardo Salgado no Grupo Espírito Santos e na
PT, bem como por garantir a concessão de financiamento da Caixa Geral
de Depósitos ao empreendimento Vale do Lobo, no Algarve, e por favorecer
negócios do Grupo Lena.