Argentina aprova projeto de lei para promover a mineração perto dos glaciares
Hoje 10:14
— Lusa/AO Online
A
reforma da nova lei dos Glaciares, rejeitada por várias organizações
ambientais, reduz as áreas protegidas e permite novos investimentos na
mineração em áreas atualmente preservadas pela legislação em vigor. Segundo
o jornal La Nación, a reforma foi aprovada com 40 votos a favor, 31
contra e apenas uma abstenção, aguardando agora votação na Câmara dos
Deputados.A presidente do Senado, Patricia
Bullrich, ex-ministra da Segurança e uma das aliadas mais próximas do
presidente, defendeu a reforma como prova de que a Argentina "é um país
que cuida das suas províncias", argumentando que, ao abrigo da lei
atual, "a proteção significava paralisia".“Optámos
por intervir neste momento histórico, que permitirá à Argentina entrar
na enorme transição energética que a humanidade atravessa e que
beneficiará o nosso povo”, afirmou.O
projeto de lei, que o governo de Milei apresentou ao Congresso no final
do ano passado, concede aos estados o poder de determinar as zonas
periglaciais (próximas dos glaciares) onde as atividades mineiras podem
ser permitidas.A iniciativa altera a Lei
dos Glaciares, aprovada em 2010 na Argentina, uma lei pioneira na
América Latina que estabelece a proteção dos glaciares e do ambiente
periglaciar como reservas hídricas estratégicas.O
governo defendeu que esta alteração à Lei dos Glaciares é necessária
para contribuir para o desenvolvimento económico do país, impulsionando a
mineração, um setor que atualmente recebe investimentos significativos,
principalmente em lítio, cobre e ouro.As
empresas mineiras argumentam que nem todos os ambientes periglaciais
constituem "reservas estratégicas de recursos hídricos" que exijam
proteção, e que uma avaliação caso a caso por parte das províncias
poderia autorizar projetos de produção em áreas próximas de glaciares
"sem função hidrológica relevante".Vários
senadores de diferentes blocos da oposição questionaram a iniciativa do
governo, argumentando que enfraquece a proteção dos glaciares e
apresenta "falhas constitucionais".O
projeto de lei gerou forte contestação por parte das organizações
ambientalistas, que alertam para o risco de importantes reservas de água
e para a impossibilidade de os interesses das empresas privadas se
sobreporem ao direito coletivo a um ambiente saudável, consagrado na
Constituição Nacional.Uma dessas
organizações é a Greenpeace, que realizou hoje de manhã um protesto no
Congresso Nacional, que terminou com a detenção de uma dezena de
ativistas e de um operador de câmara do canal de notícias A24, que ficou
ferido.Na Argentina, não existe um
registo nacional de projetos mineiros em ambientes glaciares e
periglaciais, mas os ambientalistas concordam que muitas áreas de
concessão mineira afetam ou podem afetar os glaciares e a sua
envolvente.Em 2016, um relatório
governamental reconheceu a existência de 44 projetos mineiros — de um
total de 77 — em ambientes periglaciais.Desde
então, não houve novos dados oficiais, mas presume-se que o número real
seja muito maior devido ao crescimento explosivo da mineração na
Argentina: só nos últimos três anos, o número de projetos no país subiu
de 160 para 325.