Áreas marinhas protegidas dos Açores dividem especialistas e associações

17 de abr. de 2024, 11:22 — Lusa/AO Online

“A implementação tem de ser já, porque nós andamos há muito, muito, muito tempo, mas continuamos a ter áreas marinhas protegidas apenas no papel”, lembrou Helena Calado, investigadora da Universidade dos Açores, durante uma audição na Comissão de Assuntos Parlamentares, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.A professora universitária, ouvidas a propósito de duas petições entregues na Assembleia Legislativa dos Açores (uma delas a exigir a implementação rápida do processo e outra a defender que se deve estudar melhor o assunto), teme mesmo que os Açores possam vir a perder a liderança que já tinham assumido neste processo.“Eu acho que os Açores tinham de continuar a liderar este processo, sob pena de poder ser retirada alguma da capacidade de interferência nesta matéria”, advertiu Helena Calado, para quem “é urgente avançar já” na implementação das novas áreas.Mas o investigador do instituto Okeanos Telmo Morato, também ligado à Universidade dos Açores e ouvido pelos deputados, tem um entendimento diferente e defende que é necessário estudar melhor o impacto que estas áreas poderão ter para a atividade piscatória e para os próprios recursos marinhos.“Se se mantiver o esforço de pesca, reduzindo a área disponível, poderá resultar em depleções localizadas que depois, quando fizermos a análise global, poderá produzir uma redução da biomassa total de peixe nos Açores”, alertou o investigador.Telmo Morato entende também que as novas áreas marinhas protegidas a criar nos Açores poderão ter um impacto na atividade da pesca, que não está ainda devidamente estudado, embora entenda que a pesca com palangre, ou pesca de fundo, será, porventura, a que menor impacto sofrerá.A divergência de posições sobre este assunto verifica-se também entre as associações ligadas às atividades marítimas, que foram ouvidas pelos deputados ao parlamento açoriano.O presidente da Associação de Operadores Marítimo-turísticos dos Açores (AOMA), Jorge Botelho, entende que é necessária mais rapidez neste processo e que é preciso implementar novas áreas marinhas “o mais rápido possível” no arquipélago.“Esta implementação já peca por tardia, ou seja, quanto mais tempo se passar, pior vai ser, certamente! O que nós achamos é que isto requer urgência, de modo a que as áreas marinhas protegidas nos Açores sejam, efetivamente, implementadas”, realçou aquele dirigente associativo.Contudo, João Freitas, da Associação de Pesca Lúdica dos Açores, tem uma opinião contrária e defende que haja mais tempo para se estudar este assunto e para se analisar os reais impactos que esta medida pode ter para algumas atividades profissionais e para a economia da região.“Sem dúvida que existe margem para aumentar as áreas marinhas protegidas, mas com as pessoas e para as pessoas. A pressa, neste contexto, trará muito mais de negativo para as populações, e inclusive para quem toma esta decisão, do que, propriamente, criarmos algo sustentado, diferente e devidamente regulamentado”, alertou João Freitas.O Governo dos Açores, em parceria com a Fundação Oceano Azul e com a Waitt Fondation, anunciou a intenção de transformar 30% dos mares da região (cerca de 300 quilómetros quadrados) em áreas marinhas protegidas, metade dos quais em regime de “proteção total”, mas em acordo com os armadores, pescadores e comunidades piscatórias.O objetivo é aumentar a preservação dos recursos marinhos, reduzir as atividades extrativas e tornar mais sustentável o uso do espaço marítimo nas ilhas.