AR conclui que deputado do PS não podia ser impedido de se reunir com ex-CEO
TAP
2 de mai. de 2023, 19:08
— Lusa/AO Online
PSD e Chega tinham pedido à Comissão de
Transparência e Estatuto dos Deputados para emitir parecer sobre a
presença do deputado socialista Carlos Pereira numa reunião com a
anterior presidente executiva da TAP na véspera da sua audição
parlamentar em janeiro, na comissão parlamentar de Economia, e se
existiu conflito de interesses por ser depois coordenador do PS na
comissão de inquérito à TAP.O parecer, da
autoria da deputada do PCP Alma Rivera, refere que “a participação de um
deputado do grupo parlamentar que suporta o Governo numa reunião
convocada pelo próprio Governo com a participação da administração de
uma empresa de capitais públicos, com o objetivo de preparar uma audição
relativa a essa mesma empresa, dotando esse grupo parlamentar de
informações não fornecidas aos demais, coloca-o numa posição
privilegiada contrária ao princípio do estatuto único constante do
artigo 1.º, n.º 2 do Estatuto dos Deputados”.O
parecer refere igualmente que esta situação “levanta a suspeita sobre o
condicionamento das perguntas e respostas a efetuar na comissão, pelo
que é politicamente censurável”.No
entanto, “independentemente do juízo de censura política que
legitimamente se faça dos factos descritos, os poderes dos deputados e
dos grupos parlamentares” decorrentes da Constituição, Estatuto dos
Deputados, Regimento da Assembleia da República, Código de Conduta dos
Deputados e Regime Jurídico dos Inquéritos Parlamentares, “implicam que
nenhum deputado pode ser impedido de participar em qualquer reunião que
entenda útil para o exercício do seu mandato”.Conclui-se
também que “a indicação dos deputados para integrar qualquer comissão
parlamentar, permanente ou individual, é um direito exclusivo dos grupos
parlamentares”.Este parecer foi aprovado
hoje pela 14.ª comissão com os votos favoráveis de PS e PCP, a abstenção
da Iniciativa Liberal (IL) e os votos contra de PSD e Chega. O BE
estava ausente da sala no momento da votação.No
debate que decorreu antes da votação, a deputada Alma Rivera afirmou
que, do ponto de vista das normas que regem o mandato dos deputados,
“não existe nenhum impedimento que se possa invocar”, apontando que o
“resto é juízo político”.A comunista
defendeu igualmente que o parecer que elaborou é “equilibrado na medida
em que não ignora as inquietações que uma situação destas pode suscitar,
mas também não retira conclusões que, de acordo com a ordem vigente,
não pode tirar”.A deputada Emília
Cerqueira, do PSD, considerou que o parecer faz uma “leitura desligada
da realidade” e deveria ter referências aos “factos públicos e notórios”
de “reuniões mais ou menos secretas de um grupo parlamentar”.E
considerou que a questão prende-se com as “implicações de um deputado
declarar não ter conflito de interesses quando anda a fazer combinações
de perguntas e respostas”.Rui Paulo Sousa,
do Chega, apontou que o parecer dá “uma no cravo e outra na ferradura” e
considerou que quando o deputado Carlos Pereira “diz não ter nenhum
conflito de interesses” devido à participação nessa reunião “sem dúvida
que há não está de acordo” com as disposições que regem o exercício do
mandato.Carlos Guimarães Pinto, da IL,
apontou que as “dimensões jurídica e política não são totalmente
separáveis” e defendeu que um deputado que integre uma comissão de
inquérito tem “uma responsabilidade acrescida no que diz respeito a
eventuais conflitos de interesse”.Por seu
turno, o socialista João Castro lamentou o uso do termo “reunião
secreta” e a “repetição contínua de que houve perguntas e respostas
combinadas”.O deputado do PS disse
subscrever “na íntegra que nenhum deputado pode ser impedido de
participar” numa reunião que entenda útil e reiterou que o encontro
entre socialistas, membros do Governo e a ex-CEO da TAP teve como
objetivo “preparar a audição na Comissão de Economia” e decorreu antes
do início da comissão de inquérito.“Continuamos
sem perceber como é que uma reunião realizada antes do início de
funções de uma comissão parlamentar de inquérito pode prejudicar essa
mesma comissão parlamentar de inquérito”, salientou.Carlos
Pereira era coordenador do PS na Comissão Parlamentar de Inquérito à
TAP, mas deixou de integrar esta comissão em meados de abril.