Aquecimento global deverá tornar Açores mais atrativos para o turismo de verão

Hoje 09:52 — Ana Carvalho Melo

Os Açores deverão registar um aumento no número de dias com condições “excelentes” para o turismo de praia, especialmente durante o verão, segundo  um estudo científico publicado na revista Scientific Reports da Nature,  que abrange os quatro arquipélagos da Macaronésia.Segundo o artigo científico “Projeções climáticas regionais de alta resolução e impactos no turismo nos arquipélagos da Macaronésia”, com coautoria do meteorologista do IPMA Diamantino Henriques, os arquipélagos do norte, como os Açores e a Madeira, beneficiarão de melhores condições no verão, embora esta mudança seja estatisticamente menos significativa no inverno. Ao Açoriano Oriental, Diamantino Henriques explicou que o estudo, publicado em março de 2026, utiliza projeções climáticas de alta resolução que mostram que os Açores deverão registar um aumento na adequação climática para o turismo, especialmente durante o verão.“Prevê-se um aumento generalizado e estatisticamente significativo de dias com condições ‘excelentes’ para o turismo de praia (índice HCIB80) em todas as ilhas”, refere, explicando que o HCIB80 é um subindicador derivado do Holiday Climate Index for Beach Tourism (HCIB), utilizado no estudo para quantificar a viabilidade e a atratividade climática das regiões para o turismo de praia e que inclui variáveis como a temperatura do ar, humidade relativa, nebulosidade, quantidade de precipitação e velocidade do vento.Ainda sobre os Açores, explica que, no caso do inverno, embora as projeções sejam geralmente positivas, são caracterizadas por uma menor significância estatística, sobretudo nas cotas mais elevadas, o que sugere uma maior incerteza quanto à evolução das condições turísticas de inverno no arquipélago em comparação com os arquipélagos situados mais a sul.Face a estas conclusões, o estudo destaca que estas mudanças sugerem oportunidades para a extensão das épocas turísticas e um potencial aumento no número de visitantes, especialmente fora dos períodos de pico tradicionais. No entanto, os autores ressalvam que a incerteza no inverno exige uma monitorização contínua e estudos localizados.Diamantino Henriques alerta, porém, que o aquecimento global não significa apenas “bom tempo”, mas também o aumento de condições favoráveis ao agravamento de fenómenos extremos como tempestades.Nesse sentido, lembra que o aquecimento global “não exclui que possam haver tempestades mais intensas no futuro”, assim como “aumento de situações de vento extremo e de precipitação extrema”, o que pode causar danos graves como os que ocorreram recentemente e “prejudicaram muito aqui a parte das infraestruturas”.Acrescenta ainda que a transição das ilhas de um clima subtropical para condições mais próximas do tropical poderá permitir a sobrevivência de novos vetores de doenças, e que o aumento do nível médio do mar combinado com a erosão costeira resultante da intensificação das tempestades é um risco crítico que, embora não medido pelo índice de clima turístico, ameaça a infraestrutura física.Refira-se que este trabalho teve dois objetivos principais, visando preencher lacunas metodológicas e geográficas em investigações anteriores sobre a região da Macaronésia.Em primeiro lugar, procurou gerar dados climáticos detalhados para os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde. Depois, quantificar como as condições climáticas para o turismo, especialmente o turismo de praia, podem melhorar ou deteriorar-se ao longo do século XXI.O estudo mostra ainda que, a Madeira apresenta também aumentos estatisticamente significativos de dias “excelentes” tanto no verão como no inverno. Nas Canárias, são projetados aumentos generalizados e significativos durante o inverno, com ganhos particularmente expressivos nas zonas costeiras do sul da Gran Canária. Cabo Verde regista os maiores ganhos de dias excelentes no inverno entre todos os arquipélagos, especialmente nas ilhas do Fogo e de Santo Antão.