Apresentado primeiro "portefólio" do maior e mais potente telescópio espacial
12 de jul. de 2022, 18:19
— Lusa/AO online
A
apresentação do "portefólio", que colocou a descoberto pormenores
desconhecidos de cinco corpos celestes, pôde ser seguida pelos canais
televisivos das agências espaciais norte-americana (NASA) e europeia
(ESA), parceiras no telescópio com a congénere canadiana (CSA).O
Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, foi o "anfitrião" da
revelação da primeira imagem num evento realizado ainda na segunda-feira
na Casa Branca.Trata-se da imagem
infravermelha mais profunda e clara do Universo distante que foi
capturada até agora, do aglomerado SMACS 0723, repleto de milhares de
galáxias, incluindo os mais pequenos e mais ténues objetos alguma vez
observados.A imagem concentra-se num ponto
no céu onde "grandes aglomerados de galáxias em primeiro plano ampliam e
distorcem a luz dos objetos atrás deles, permitindo uma visão de campo
profundo das populações de galáxias extremamente distantes", com 13,1
mil milhões de anos, quando o Universo era "jovem" (a idade estimada do
Universo pela Teoria do Big Bang é 13,8 mil milhões de anos).Depois da divulgação desta imagem seguiu-se a revelação do espetro do planeta WASP-96b, descoberto em 2014.Trata-se
de um planeta gigante fora do Sistema Solar, extremamente quente,
composto principalmente por gás e, apesar de ter assinatura de vapor de
água na sua atmosfera, é "inabitável". Está localizado quase a 1.150
anos-luz da Terra e orbita a sua estrela a cada 3,4 dias.Nunca antes tinha sido observado com tanto detalhe, asseguram os peritos.A
lista de "revelações" ficou completa com as imagens da Nebulosa do Anel
Sul, uma nuvem de gás que rodeia uma estrela moribunda e na qual foi
detetada pela primeira vez uma segunda estrela em "agonia", do Quinteto
de Stephan, um grupo de cinco galáxias situado entre 40 milhões e 290
milhões de anos-luz da Terra, na constelação Pegasus, e da Nebulosa
Carina, uma das maiores e mais brilhantes nebulosas no céu, localizada a
cerca de 7.600 anos-luz da Terra, na constelação Carina. A Nebulosa Carina abriga um "berçário" de estrelas, algumas nunca antes vistas, com uma massa várias vezes superior à do Sol.A
imagem do Quinteto de Stephan mostra como "as galáxias em interação
desencadeiam a formação de estrelas e como o gás está a ser perturbado e
as ejeções de material a serem impulsionadas por um buraco negro"
supermaciço no centro de uma das galáxias, que tem uma massa 24 milhões
de vezes superior à do Sol.As imagens, com
um detalhe sem precedentes, marcam o início das operações científicas
do James Webb e a sua seleção ficou a cargo de um comité de
representantes da NASA, ESA e CSA e do Space Telescope Science
Institute, centro de operações científicas do telescópio espacial, nos
Estados Unidos. O telescópio James Webb
tem o nome de um antigo administrador da NASA e foi enviado para o
espaço em 25 de dezembro, após sucessivos atrasos, num foguetão de
fabrico europeu. Está em órbita desde janeiro, a 1,5 milhões de
quilómetros da Terra, no chamado ponto Lagrange 2, que lhe permite ter
uma observação ininterrupta e dados livres dos efeitos contaminantes da
atmosfera da Terra.Ao contrário do
telescópio Hubble, que gira em torno da Terra, o James Webb está em
redor do Sol, a uma distância que replica quatro vezes a que separa a
Terra da Lua. O telescópio e os seus
quatro instrumentos estão protegidos do calor e da luz solar por um
escudo do tamanho de um campo de ténis que garante a necessária
escuridão e temperatura (em graus negativos) para capturar a luz fraca
proveniente dos confins do Universo.O
espelho principal do Webb tem 6,5 metros de diâmetro (mais 4,1 metros do
que o do Hubble) e é composto por 18 segmentos hexagonais que funcionam
como um todo, melhorando a sua sensibilidade (100 vezes superior à do
Hubble).Os instrumentos do James Webb
permitem recolher imagens dos corpos celestes e decompor a sua luz
(captada no infravermelho, luz que não é visível ao olho humano) para
estudar as propriedades físicas e químicas dos corpos observados.Antes
de poder iniciar os seus trabalhos científicos, o telescópio passou por
um período de seis meses dedicado à calibração dos seus instrumentos no
espaço e ao alinhamento dos seus espelhos.A
astrónoma portuguesa Catarina Alves de Oliveira, que trabalha no Centro
de Operações Científicas da ESA, em Espanha, é responsável pela
calibração de um dos quatro instrumentos, participando na campanha de
preparação das observações com fins científicos.Vários cientistas portugueses estão envolvidos em projetos de investigação que implicam tempo de observação com o telescópio.Os
astrónomos esperam com o James Webb obter mais dados sobre os
primórdios do Universo, incluindo o nascimento das primeiras galáxias e
estrelas, mas também sobre a formação de planetas.